Crítica: “Da Magia à Sedução 2” reúne Bullock e Kidman, mas não recupera a magia do original

"Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor" pode estrear no topo das bilheterias e encerrar domínio de "Homem-Aranha: Um Novo Dia".
Foto: Warner Bros

Quase três décadas depois, Sandra Bullock e Nicole Kidman voltam ao universo das irmãs Owens em “Da Magia à Sedução 2”. O reencontro tem um valor imediato: as duas atrizes continuam sendo o principal motivo para retornar a essa história. O problema é que a sequência parece acreditar que reunir novamente seu elenco e recuperar elementos conhecidos basta para justificar a continuação.

O primeiro “Da Magia à Sedução” ganhou um público fiel com o passar dos anos por uma combinação difícil de reproduzir. Romance, fantasia, humor, tragédia e uma história sobre mulheres encontravam espaço no mesmo filme, mesmo quando essa mistura nem sempre funcionava perfeitamente. A sequência tenta recuperar esse espírito, mas também traz de volta vários dos problemas que o original carregava.

A nova história acompanha Sally e Gillian Owens em uma fase diferente da vida. O foco se amplia para Kylie e Antonia, as filhas de Sally, enquanto a antiga maldição da família volta a ameaçar uma nova geração. Quando um acontecimento coloca Kylie diante das consequências de seu relacionamento amoroso, Sally precisa finalmente confrontar o medo que passou anos tentando esconder das próprias filhas.

É uma premissa que poderia levar “Da Magia à Sedução 2” a lugares interessantes. Sally passou a vida tentando se proteger da dor e agora percebe que sua tentativa de proteger as filhas também significou esconder delas uma parte fundamental de quem são. A sequência encontra, nessa relação entre mães, filhas e gerações anteriores da família Owens, seu caminho mais promissor.

A sequência encontra uma ideia, mas não sabe o que fazer com ela

"Evan Rachel Wood comenta sua ausência em "Da Magia à Sedução 2" após Joey King assumir seu antigo papel.
Foto: Warner Bros

O maior problema de “Da Magia à Sedução 2” é que o filme constantemente abandona suas ideias mais interessantes para voltar ao território familiar. A história apresenta uma nova geração, amplia a mitologia da família e coloca Sally diante de conflitos que o primeiro filme não poderia explorar. Ainda assim, boa parte da narrativa acaba girando em torno de situações que parecem existir apenas para lembrar o público de que este é, de fato, um retorno ao mesmo universo.

Isso também afeta a evolução de Sally e Gillian. Sandra Bullock e Nicole Kidman continuam confortáveis nos papéis, e o reencontro entre as duas tem um apelo que o filme sabe explorar. No entanto, a sequência pouco aproveita o fato de quase 30 anos terem passado desde a primeira história. Sally continua definida principalmente por sua resistência emocional, enquanto Gillian preserva boa parte da impulsividade que já caracterizava a personagem.

O resultado é curioso: as atrizes envelheceram, o universo avançou e uma nova geração entrou em cena, mas as protagonistas parecem, em vários momentos, presas à versão que o público conheceu no passado. O filme depende tanto da nostalgia que acaba limitando justamente a possibilidade de mostrar como essas mulheres mudaram.

Joey King, como Kylie, se beneficia dessa tentativa de levar a história adiante. A personagem vive a descoberta simultânea de seus sentimentos, da herança da família e de poderes que não entende completamente. King consegue transmitir essa instabilidade e acaba sendo uma das presenças mais importantes para dar algum impulso novo à sequência.

130 minutos para uma história que demora a avançar

Se a nostalgia impede o filme de avançar em alguns momentos, a duração agrava ainda mais esse problema. Com cerca de 130 minutos, “Da Magia à Sedução 2” demora demais para desenvolver conflitos que poderiam ter sido resolvidos com muito mais agilidade.

O mistério central perde força porque o roteiro prolonga revelações e deslocamentos mesmo quando a direção da história já se tornou bastante evidente. A viagem para a Inglaterra, a busca por respostas e a introdução de novos personagens criam a sensação de expansão, mas nem sempre acrescentam algo proporcional ao tempo que ocupam.

Lee Pace, como Ian, é um bom exemplo disso. O ator tem presença e constrói uma química natural com Bullock, trazendo uma dinâmica que poderia enriquecer Sally de uma maneira inesperada. O roteiro, porém, parece hesitar sobre a importância dessa relação. Ian recebe espaço suficiente para despertar interesse, mas não para se tornar realmente essencial à história.

Outros personagens sofrem com o problema oposto: estão presentes, mas pouco fazem. Antonia, interpretada por Maisie Williams, recebe um espaço bastante limitado, enquanto figuras que poderiam ampliar a importância das diferentes gerações da família Owens acabam funcionando mais como lembranças do primeiro filme do que como personagens com participação decisiva.

A nostalgia não consegue substituir uma nova história

"Da Magia à Sedução 2" reúne Sandra Bullock e Nicole Kidman quase três décadas após o filme original.
Foto: Warner Bros

“Da Magia à Sedução 2” funciona melhor quando deixa de tentar reproduzir o filme de 1998 e observa o que aconteceu com essas mulheres desde então. Existe uma história interessante sobre o medo de Sally de perder as pessoas que ama e sobre como esse medo se transforma em uma tentativa de controlar o futuro das filhas. Também existe potencial na passagem de conhecimento entre as diferentes gerações da família Owens.

Mas essas ideias disputam espaço com uma trama excessivamente longa e com a necessidade constante de recuperar símbolos, relações e situações que o público já conhece. Em vez de usar a distância de quase três décadas para redefinir o que “Da Magia à Sedução” pode ser, a sequência frequentemente parece preocupada em provar que ainda pertence ao mesmo lugar.

O retorno de Sandra Bullock e Nicole Kidman garante momentos de prazer para quem tem carinho pelo original. As duas continuam sendo o centro emocional mais reconhecível desse universo, e há um valor genuíno em vê-las juntas novamente. Ainda assim, o reencontro não resolve um problema fundamental: a sequência não encontra uma história tão forte quanto a memória que o público construiu sobre o primeiro filme.

“Da Magia à Sedução 2” não fracassa por abandonar o espírito do original. Pelo contrário, ele se aproxima demais dele. Ao repetir sua mistura de romance, magia e drama familiar sem corrigir a falta de foco que já existia antes, a sequência transforma a nostalgia em seu principal recurso e também em sua maior limitação.

No fim, o filme oferece aos fãs aquilo que eles provavelmente esperavam ver: Bullock e Kidman de volta, a família Owens reunida e mais uma história cercada por magia e maldições. O que falta é uma razão convincente para acreditar que essa continuação precisava esperar 28 anos para acontecer. Às vezes, manter uma história querida viva significa deixá-la evoluir. Outras vezes, significa aceitar que algumas memórias funcionam melhor quando não se tenta repetir o feitiço.

Recomendado para você

Leia Também

Leitura obrigatória

“A Morte do Demônio: Em Chamas” chega à HBO Max em outubro.

Onde assistir “A Morte do Demônio: Em Chamas”? Veja data de estreia no streaming

“A Morte do Demônio: Em Chamas” estreia na HBO Max em 2 de outubro, menos de três meses após chegar aos cinemas brasileiros.