“Just Play Dead” tinha quase tudo para funcionar como uma comédia policial divertida. Martin Campbell, diretor de “Casino Royale”, coloca Samuel L. Jackson e Eva Green no centro de uma trama de golpes, traições e uma falsa morte de US$ 30 milhões. O cenário são as Ilhas Canárias, e a proposta parece simples: um criminoso quer enganar o seguro, enquanto sua esposa já planeja uma maneira de se livrar dele.
O problema é que o filme complica uma ideia que funcionaria melhor com menos peças. Em vez de transformar as armações de Jack e Nora em um jogo imprevisível, o roteiro de Dan Gordon explica cada movimento até que as reviravoltas deixem de ser divertidas. “Just Play Dead” tenta recuperar o espírito das comédias criminais que ganharam força depois de “Pulp Fiction”, mas parece mais uma lembrança tardia daquele período do que uma atualização da fórmula.
Uma trama que se perde nas próprias armações

Jack Wolfe, vivido por Samuel L. Jackson, é um criminoso rico que descobre estar perto de ser preso depois que um associado revela a origem ilegal de sua fortuna. Para escapar, ele decide simular a própria morte e receber US$ 30 milhões do seguro.
Nora, sua esposa, deveria participar do golpe. Afinal, Jack colocou 51% de seu patrimônio no nome dela, o que também a envolve nos crimes. Só que ela já estava planejando a morte do marido e começa a manipular outras pessoas para colocar seu próprio plano em prática.
A partir daí, policiais, amantes, criminosos e possíveis cúmplices entram na história. O problema não é a quantidade de personagens. Uma boa comédia de golpes pode funcionar justamente por acumular planos dentro de planos. A questão é que “Just Play Dead” raramente encontra uma maneira interessante de fazer essas peças colidirem.
O roteiro prefere explicar o que está acontecendo em vez de deixar o espectador descobrir junto com os personagens. Cada nova estratégia deveria provocar curiosidade sobre quem está enganando quem, mas a narrativa frequentemente interrompe essa sensação para deixar tudo mastigado.
Com isso, a complexidade deixa de ser parte da diversão. O filme fica cheio de reviravoltas, mas poucas realmente produzem surpresa.
Samuel L. Jackson e Eva Green mereciam personagens melhores

Samuel L. Jackson é provavelmente o elemento mais confortável dentro desse universo. Jack foi construído para aproveitar a persona que o ator desenvolveu em tantos filmes de criminosos confiantes e perigosos. Existe até uma lembrança distante de seus trabalhos com Quentin Tarantino, mas os diálogos não são bons o bastante para transformar essa familiaridade em algo especial.
Jackson mantém presença mesmo quando o roteiro não ajuda. Jack deveria ser sempre o personagem mais preparado da sala, alguém que já pensou em todas as possibilidades. A ideia funciona no papel, mas perde força quando o próprio filme passa tempo demais explicando suas estratégias.
Eva Green encontra uma dificuldade semelhante. Nora foi escrita como uma mulher acostumada a manipular homens e capaz de transformar relacionamentos em ferramentas para alcançar seus objetivos. Green tem experiência suficiente para interpretar esse tipo de personagem, mas a atuação não consegue compensar a falta de profundidade da personagem.
A relação entre os dois também deveria ser o motor do filme. Existe uma dinâmica interessante em colocar marido e mulher tentando descobrir qual dos dois será capaz de trair o outro primeiro. Só que o roteiro não desenvolve essa disputa com a tensão necessária.
Martin Campbell faz sua parte

Se existe um aspecto em que “Just Play Dead” demonstra mais segurança, é na direção. Campbell aproveita bem as Ilhas Canárias e cria uma produção visualmente mais elegante do que a história sugere.
As paisagens tropicais dão personalidade ao filme, e a fotografia de Giles Nuttgens ajuda a transformar o cenário em parte importante da experiência. É uma ironia que um filme com aparência tão bem acabada tenha uma história que parece tão pouco interessada em encontrar uma identidade própria.
Campbell também não é o principal responsável pelo ritmo irregular. O diretor já mostrou em “Casino Royale” e “GoldenEye” que sabe conduzir histórias de ação com personagens fortes. Mesmo trabalhos posteriores, como “Memory” e “The Protégé”, mostram que ele continua capaz de entregar produções competentes dentro do gênero.
Aqui, porém, o material simplesmente não oferece muitas oportunidades para que essa experiência faça diferença.
Um filme preso a uma fórmula que já passou

O maior problema de “Just Play Dead” não é tentar fazer uma comédia criminal à moda antiga. O problema é não encontrar uma razão para contar essa história agora.
A influência de “Pulp Fiction” aparece no tipo de criminoso, nos golpes cruzados e na tentativa de misturar violência, humor e personagens excêntricos. Mas aquela fórmula dependia de diálogos afiados, personalidades marcantes e uma sensação constante de que qualquer conversa poderia tomar um rumo inesperado.
“Just Play Dead” tem os personagens e a estrutura necessários para isso, mas não consegue encontrar o mesmo ritmo. Jack e Nora deveriam formar uma dupla perigosa e imprevisível. Em vez disso, sua disputa se torna repetitiva justamente porque o roteiro revela demais sobre cada plano.
Até os personagens secundários acabam sofrendo com isso. Dani, Chad e Bianca poderiam alterar completamente o equilíbrio da história, mas são usados principalmente para movimentar uma trama que já está sobrecarregada de explicações.
O resultado é um filme que parece mais interessado em mostrar quantas reviravoltas consegue colocar na história do que em fazer cada uma delas valer a pena.
Uma comédia criminal que chega tarde demais
“Just Play Dead” não é um desastre de direção nem uma produção visualmente descuidada. Pelo contrário. O filme tem boas locações, atores experientes e uma premissa que poderia render uma comédia criminal bastante agradável.
O problema está no roteiro. Dan Gordon constrói uma máquina complicada demais para uma história que precisava principalmente de ritmo, personagens carismáticos e diálogos capazes de sustentar o jogo de traições.
Samuel L. Jackson e Eva Green carregam o que conseguem, enquanto Martin Campbell entrega uma produção tecnicamente segura. Mas nenhum dos três consegue esconder a sensação de que “Just Play Dead” está tentando ressuscitar um tipo de filme que precisava de uma abordagem muito mais criativa para voltar a funcionar.
No fim, a falsa morte de Jack deveria ser apenas o começo de um jogo perigoso entre marido e mulher. Acaba sendo, porém, uma desculpa para uma sequência de planos que o próprio filme explica antes de permitir que eles surpreendam.
“Just Play Dead” tinha uma boa ideia nas mãos. O que faltou foi justamente aquilo que suas referências possuíam de sobra: personalidade.






