Crítica: “O Sol Nunca Se Põe”: Dakota Fanning fica dividida entre dois amores em novo romance de Joe Swanberg

"The Sun Never Sets" acompanha Dakota Fanning em um triângulo amoroso marcado por dúvidas sobre o futuro.
Foto: Netflix

Joe Swanberg retorna ao cinema depois de uma década com “O Sol Nunca Se Põe”, uma comédia romântica que usa um triângulo amoroso para discutir uma questão menos simples do que parece: o que acontece quando alguém percebe que está confortável em um relacionamento, mas ainda não tem certeza de que essa é a vida que deseja? Com Dakota Fanning, Jake Johnson e Cory Michael Smith no centro da história, o filme aposta no diálogo naturalista e em personagens emocionalmente confusos para transformar uma situação convencional em algo mais desconfortável.

Fanning interpreta Wendy, uma mulher que vive no Alasca e mantém há dois anos um relacionamento com Jack (Johnson), um pai solteiro de dois filhos que já passou por um casamento e não pretende repetir a experiência. O problema é que Wendy começa a pensar no futuro quando sua melhor amiga, Lindsay (Debby Ryan), anuncia que está grávida. A possibilidade de casamento e maternidade, que antes parecia distante, passa a ocupar cada vez mais espaço na cabeça da personagem.

Jack percebe essa mudança antes mesmo que Wendy consiga definir exatamente o que quer. Em vez de prometer aquilo que não pretende oferecer, ele propõe uma pausa de seis meses para que os dois possam conhecer outras pessoas. A ideia deveria servir para esclarecer os sentimentos de Wendy, mas produz justamente o efeito contrário. Pouco depois, ela reencontra Chuck (Cory Michael Smith), um antigo namorado que retorna à cidade com uma visão completamente diferente de futuro.

Um triângulo amoroso sem escolhas fáceis

Dakota Fanning interpreta Wendy em "The Sun Never Sets", comédia romântica dirigida por Joe Swanberg.
Foto: Netflix

Chuck surge como o extremo oposto de Jack. Enquanto o atual namorado de Wendy representa estabilidade, mas rejeita a ideia de ter mais filhos ou se casar novamente, o ex aparece disposto a compensar o tempo perdido. O problema é que essa disposição vem acompanhada de uma impulsividade que rapidamente coloca em dúvida a aparente solução.

Swanberg constrói o conflito justamente a partir dessa contradição. Nenhum dos dois homens representa uma escolha claramente melhor, e Wendy tampouco é apresentada como alguém que simplesmente precisa decidir entre duas possibilidades. Ela está tentando descobrir se deseja aquela relação, uma família ou uma ideia de futuro que talvez tenha começado a desejar apenas porque todos ao seu redor parecem estar seguindo nessa direção.

É nesse ponto que “O Sol Nunca Se Põe” encontra seu melhor material. O filme não trata o romance como uma trajetória inevitável até um final feliz. Seus personagens erram, mudam de ideia, agem por impulso e frequentemente percebem tarde demais as consequências das próprias decisões. A proposta combina com a filmografia de Swanberg, conhecido por trabalhar com situações cotidianas e relações marcadas por diálogos espontâneos.

Naturalismo que nem sempre funciona

Dakota Fanning protagoniza "The Sun Never Sets", novo romance de Joe Swanberg sobre escolhas afetivas.
Foto: Netflix

O problema é que o mesmo naturalismo responsável pelos melhores momentos do filme também pode tornar a experiência bastante irregular. Wendy e Jack tomam decisões que parecem socialmente desconcertantes, mas Swanberg raramente interrompe o ritmo tranquilo das cenas para enfatizar o absurdo dessas situações. O resultado é uma combinação curiosa: acontecimentos capazes de provocar desconforto ou irritação são tratados com uma serenidade quase absoluta.

Isso aparece principalmente nos encontros que dão errado. Wendy está em um encontro que não queria quando reencontra Chuck e simplesmente abandona a situação. Mais tarde, Jack faz algo semelhante ao encontrar Wendy enquanto está acompanhado de outra mulher. Em vez de grandes confrontos, o filme prefere conversas aparentemente banais, nas quais os personagens continuam falando com a mesma tranquilidade enquanto deixam outras pessoas completamente desconcertadas.

Essa escolha pode ser interpretada como parte da proposta de Swanberg, mas também cria uma distância entre o espectador e os protagonistas. Em determinados momentos, é difícil saber se a intenção é rir da falta de habilidade social dos personagens, compreender suas inseguranças ou simplesmente observá-los cometer uma sequência de erros.

O Alasca poderia ser mais importante

O cenário também acaba subaproveitado. A história se passa em Anchorage, mas a cidade raramente funciona como parte essencial da narrativa. Há paisagens abertas, referências à vida local e alguns elementos específicos da região, mas boa parte da trama acontece em bares, apartamentos, galerias e casas que poderiam estar localizados em praticamente qualquer cidade americana.

Isso é especialmente perceptível porque o próprio isolamento geográfico poderia reforçar o conflito dos personagens. Em vez disso, o Alasca funciona mais como pano de fundo do que como elemento dramático. A fotografia em 35 mm acrescenta uma textura discreta às imagens, mas Swanberg novamente evita transformar o visual em algo muito elaborado.

A abordagem combina com a proposta de naturalismo, embora também contribua para uma sensação de monotonia. Não existe uma preocupação evidente em criar grandes momentos visuais ou destacar a paisagem como contraponto à confusão emocional de Wendy. O filme prefere permanecer próximo dos personagens, mesmo quando isso significa abrir mão de oportunidades que o cenário oferece.

Dakota Fanning é o principal destaque

Se o filme encontra seu equilíbrio em algum lugar, é nas atuações. Dakota Fanning sustenta Wendy com uma interpretação contida, evitando transformar a personagem em uma protagonista romântica tradicional. Sua indecisão parece menos uma estratégia de roteiro e mais o comportamento de alguém tentando entender os próprios desejos enquanto percebe que nenhuma das alternativas disponíveis resolve completamente seus problemas.

Jake Johnson também se encaixa bem na proposta de Swanberg. Jack é simultaneamente compreensível e frustrante, principalmente porque acredita estar tomando uma decisão racional ao propor o afastamento. Conforme percebe que pode realmente perder Wendy, porém, sua segurança começa a desaparecer.

Cory Michael Smith completa o triângulo com um Chuck inicialmente apresentado como a alternativa capaz de oferecer tudo aquilo que Jack não quer. A graça do personagem está justamente em descobrir que promessas grandiosas não significam necessariamente maturidade. O filme evita transformar qualquer um dos três em herói ou vilão, mantendo a relação em uma zona de desconforto que parece mais próxima da vida real.

Uma comédia romântica sobre não saber o que fazer

“O Sol Nunca Se Põe” é mais interessante quando abandona a expectativa de entregar uma resposta simples para Wendy. O filme entende que relacionamentos adultos não funcionam necessariamente a partir de escolhas perfeitas e que estabilidade, desejo, família e liberdade podem apontar para direções diferentes.

Ao mesmo tempo, a aposta radical no naturalismo cobra seu preço. O ritmo pode parecer lento, algumas situações se prolongam além do necessário e a postura excessivamente tranquila dos personagens nem sempre transforma o desconforto em humor ou drama. O que deveria parecer espontâneo ocasionalmente soa apenas tedioso.

Swanberg, porém, mantém uma ideia coerente do começo ao fim: pessoas podem passar muito tempo tentando descobrir o que querem sem perceber que a própria busca já está mudando aquilo que tinham. Nesse aspecto, o triângulo entre Wendy, Jack e Chuck funciona menos como uma disputa amorosa e mais como um retrato de três pessoas tentando encontrar alguma certeza em meio à própria confusão.

O resultado é uma comédia romântica pouco convencional, interessada menos em satisfazer as expectativas do gênero do que em observar como seus personagens conseguem complicar situações que deveriam ser simples. “O Sol Nunca Se Põe” nem sempre sabe transformar essa proposta em um filme envolvente, mas encontra força justamente na imperfeição de seus protagonistas e na interpretação de Dakota Fanning.

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