“O Morro dos Ventos Uivantes”, em suas mais recentes adaptações para o cinema, voltou a colocar em evidência as diferenças estruturais entre a obra original de Emily Brontë e suas releituras audiovisuais. A versão dirigida por Emerald Fennell se destaca por adotar uma abordagem mais livre do romance de 1847, reorganizando personagens, temas e a própria construção narrativa da história de Catherine Earnshaw e Heathcliff.
Entre as mudanças mais relevantes na adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”, estão os seguintes pontos de diferença em relação ao livro original.
Foco narrativo e redução da segunda geração
Uma das mudanças estruturais mais evidentes está na exclusão completa da chamada segunda geração da história. No livro de Emily Brontë, os filhos de Catherine e Heathcliff, além de Linton e Hareton, são peças centrais para o encerramento do ciclo de vingança. A adaptação elimina essa continuidade e concentra toda a narrativa no arco da primeira geração, encerrando o conflito de forma mais direta.
Releitura de Heathcliff e identidade social
No material original, Heathcliff é descrito de forma ambígua, com traços associados a uma origem estrangeira e marginalização social. No filme, essa dimensão é substituída por uma caracterização mais ligada à pobreza e ao abandono, sem destaque para qualquer leitura étnica específica. A mudança desloca o eixo de exclusão do personagem para uma dinâmica estritamente de classe.
Estrutura familiar e alterações em Hindley
O irmão de Catherine, Hindley Earnshaw, que no livro desempenha papel central como antagonista dentro da casa, tem sua função alterada na adaptação. Na versão cinematográfica, ele já não está presente no início da trama, sendo mencionado apenas como uma ausência anterior, o que reorganiza a dinâmica de poder dentro da família Earnshaw.
Nelly Dean e a função de narradora
Nelly Dean continua presente na história, mas sua função é redefinida. No romance de Emily Brontë, ela atua como uma das principais vozes narrativas, intermediando a construção da memória dos eventos. No filme, a personagem perde esse papel de estruturação do relato e passa a atuar mais diretamente dentro da ação, com uma relação mais próxima de Catherine e menor função de condução narrativa.
Isabella, Joseph e mudanças de comportamento
Personagens secundários também passam por reinterpretações. Isabella, que no livro vive uma relação de engano e ruptura com Heathcliff, ganha uma abordagem diferente, com maior consciência de suas escolhas dentro do relacionamento. Joseph, por sua vez, deixa de ser apenas uma figura rígida e religiosa e passa a ter uma presença mais ativa em conflitos internos da casa.
Ausência de narradores e simplificação estrutural
A narrativa em camadas do livro, construída por diferentes pontos de vista, é removida na adaptação. O filme abandona a estrutura de relatos intermediados e apresenta os acontecimentos de forma linear, com foco direto nos eventos principais sem a mediação de narradores internos.
Mudanças no desenvolvimento de Catherine e desfecho
O arco de Catherine também sofre ajustes importantes. No romance de Emily Brontë, sua trajetória inclui elementos ligados à maternidade e consequências posteriores à sua morte. No filme, sua história é condensada, com o desfecho ocorrendo de forma mais direta e com alterações nas circunstâncias de sua morte, que passam a ser tratadas sob outra lógica dramática.
Tonalidade e foco na relação central
A adaptação reforça a relação entre Catherine e Heathcliff como eixo absoluto da narrativa, ampliando o aspecto emocional e físico da conexão entre os dois. Em comparação ao livro, que distribui seu peso entre diferentes gerações e pontos de vista, o filme concentra sua energia no casal central e em sua dinâmica de obsessão e conflito.




