Alerta de spoilers: Este texto contém spoilers de “O Poço” abaixo.
O final de “O Poço” deixa uma das principais perguntas do filme sem uma resposta definitiva: o que realmente acontece com Goreng depois que ele encontra a menina no nível 333? A produção espanhola da Netflix encerra a jornada do protagonista em meio a uma sequência que mistura acontecimentos concretos, alucinações e símbolos.
Depois de atravessar os níveis da prisão vertical ao lado de Baharat, Goreng chega ao último andar e encontra uma menina escondida no local. A criança está viva e aparentemente saudável, apesar de estar com fome. Os dois decidem alimentá-la com a pannacotta que haviam preservado para enviar como mensagem à Administração.
Quando percebe que a menina pode ser a verdadeira mensagem, Goreng muda o objetivo da missão. Em vez de mandar a sobremesa de volta para o nível 0, ele coloca a criança na plataforma e a envia para cima. O próprio protagonista permanece para trás.
A partir daí, “O Poço” deixa de apresentar respostas objetivas. Goreng reencontra Trimagasi, seu primeiro companheiro de cela, que já estava morto, e os dois seguem juntos para a escuridão. Enquanto isso, a menina continua subindo em direção ao nível 0.
O que acontece com Goreng no final de “O Poço”?
O filme sugere que Goreng morre, embora não mostre sua morte de maneira direta.
Depois de colocar a menina na plataforma, Goreng desce novamente até o último nível. É nesse momento que Trimagasi aparece diante dele. Como o personagem já havia morrido anteriormente, seu retorno indica que Goreng está tendo uma visão ou que a sequência representa algo além da realidade física.
Trimagasi diz que a viagem de Goreng termina naquele momento. Os dois caminham juntos para a escuridão, enquanto a plataforma leva a menina de volta para cima.
A interpretação mais direta é que Goreng morreu depois de cumprir sua missão. A presença de Trimagasi funciona como um sinal de que o protagonista não retornará à superfície junto com a criança.
Por que a menina é a mensagem?
Goreng passou boa parte do filme acreditando que precisava enviar uma mensagem para a Administração para provar que alguma forma de solidariedade ainda era possível dentro da prisão.
Inicialmente, ele e Baharat pretendiam preservar uma pannacotta intacta. A sobremesa representaria o fato de que os prisioneiros conseguiram distribuir os alimentos pelos diferentes níveis e ainda deixar alguma coisa sem ser consumida.
Ao encontrar a menina, porém, Goreng percebe que uma criança sobrevivendo no último nível representa algo mais forte do que uma sobremesa intacta.
Por isso, ele decide salvar a menina e deixá-la subir até o nível 0. A criança passa a representar a prova de que existe uma vida vulnerável no nível mais baixo da prisão e que os prisioneiros foram capazes de protegê-la.
O filme não confirma que essa interpretação será aceita pela Administração. Essa é justamente uma das ambiguidades do desfecho. A menina é a mensagem para Goreng, mas não sabemos exatamente como aqueles que controlam o Poço irão interpretar sua chegada.
A menina realmente existe?
O filme não responde diretamente a essa pergunta.
Essa é uma das principais teorias sobre o final. Durante a história, Goreng passa por situações extremas de fome, violência e privação, além de encontrar personagens que já morreram e que posteriormente aparecem novamente diante dele.
Por isso, é possível interpretar a menina como uma pessoa real ou como uma representação criada pela mente de Goreng.
A leitura de que ela realmente existe, porém, é sustentada pelo fato de que ela é encontrada no nível 333 e consegue subir pela plataforma. O filme constrói a sequência para que sua presença possa funcionar como a conclusão concreta da missão de Goreng, mesmo sem esclarecer como ela chegou até aquele lugar.
Como a narrativa não confirma nenhuma das duas possibilidades, a existência da menina permanece deliberadamente aberta.
O que a pannacotta representa?
A pannacotta é inicialmente tratada como a mensagem que Goreng e Baharat pretendem enviar à Administração.
A ideia era devolver a sobremesa intacta para mostrar que, apesar de todos os níveis da prisão, os prisioneiros conseguiram preservar uma parte da comida. O objeto funcionaria como uma prova de que era possível interromper o ciclo de consumo excessivo.
Quando a menina come a pannacotta, porém, o significado muda. Goreng percebe que preservar uma sobremesa para os administradores importa menos do que alimentar uma criança que está no nível mais baixo da prisão.
A troca representa a própria transformação do protagonista. A mensagem deixa de ser um objeto e passa a ser uma pessoa que precisa ser protegida.
Qual é o significado dos 333 níveis?
O número 333 também contribui para uma das interpretações simbólicas do filme.
Como existem dois prisioneiros em cada nível, a estrutura chega a 666 pessoas. O número é associado tradicionalmente à figura da besta no cristianismo e alimenta a interpretação de que o Poço possui referências religiosas.
Nessa leitura, o nível 0 pode ser associado ao paraíso, enquanto os níveis inferiores representam uma descida progressiva até o inferno. O último nível, portanto, funciona como o ponto mais extremo dessa estrutura.
O filme, entretanto, não explica oficialmente que os números tenham esse significado religioso. Trata-se de uma interpretação baseada nos símbolos apresentados pela própria história.
O final de “O Poço” tem relação com o cristianismo?
Existem elementos que permitem uma leitura religiosa do desfecho, embora o filme não apresente uma explicação oficial nesse sentido.
Goreng é chamado de “messias” em diferentes momentos e passa a ser visto por alguns personagens como alguém disposto a descer pelos níveis para tentar modificar o comportamento dos demais prisioneiros.
A jornada também pode ser comparada a uma descida ao inferno, enquanto a menina representa uma figura inocente que consegue escapar da estrutura do Poço.
A presença de Trimagasi no final reforça essa interpretação simbólica. Goreng permanece na escuridão enquanto a criança sobe, criando uma imagem de sacrifício em que o protagonista abre mão da própria sobrevivência para permitir que outra pessoa tenha uma chance.
Essas referências, porém, não significam que o filme tenha uma única interpretação religiosa. Elas fazem parte do conjunto de símbolos que tornam o final aberto a diferentes leituras.
Goreng morreu?
O filme não mostra uma morte explícita, mas os elementos da sequência final apontam para essa possibilidade.
Trimagasi aparece novamente apesar de já estar morto, e Goreng segue com ele para a escuridão depois de colocar a menina na plataforma. Ao mesmo tempo, a criança continua subindo sozinha.
Por isso, a leitura mais comum é que Goreng morreu depois de cumprir sua missão. Outra possibilidade é que ele tenha permanecido no último nível e a sequência com Trimagasi seja uma alucinação provocada por seu estado físico e psicológico.
O filme não resolve essa dúvida. O que ele mostra, sem ambiguidade, é que Goreng fica para trás enquanto a menina sobe.
O que realmente aconteceu no final?
Separando os acontecimentos das interpretações, a sequência final mostra Goreng e Baharat chegando ao nível 333, encontrando uma menina e entregando a ela a pannacotta que pretendiam usar como mensagem.
Baharat não sobrevive à descida. Goreng então entende que a criança pode ser uma mensagem mais poderosa do que a sobremesa e a coloca na plataforma para que ela suba até o nível 0.
Depois disso, Goreng permanece no último nível e encontra novamente Trimagasi. A sequência termina com os dois seguindo para a escuridão, enquanto a menina sobe.
O filme não confirma se Goreng morreu, se a menina realmente existia ou se toda a sequência final contém elementos de delírio. Essas dúvidas fazem parte da proposta do desfecho.
O que permanece mais claro é o significado da escolha de Goreng: ele deixa de tentar provar que os prisioneiros podem ser solidários por meio de uma sobremesa e passa a demonstrar isso salvando alguém que está em uma posição ainda mais vulnerável.
“O Poço” termina, portanto, sem explicar completamente o destino de Goreng, mas deixando definida a mensagem central de sua jornada. A criança sobe em direção à superfície enquanto ele permanece para trás, transformando seu sacrifício na última tentativa de mostrar que o sistema pode ser enfrentado quando alguém decide interromper o ciclo de consumo e indiferença.





