Crítica: “17”: o silêncio de uma adolescente diante da violência e da vergonha

Sara, protagonista de “17”, aparece isolada durante a viagem escolar que se transforma em um ambiente de medo e silêncio.
Foto: Montenegro Film Commission

“17” não trata a adolescência como uma fase de descobertas e liberdade. No primeiro longa-metragem de Kosara Mitić, completar 17 anos significa carregar um segredo que se torna cada vez mais difícil de esconder, enquanto a garota que deveria estar vivendo uma viagem escolar tenta sobreviver às consequências de uma violência que ninguém ao seu redor parece disposto a enxergar.

A protagonista é Sara (Eva Kostić), uma estudante que viaja para a Grécia com a turma enquanto esconde uma gravidez. O segredo, porém, é apenas a parte mais visível de uma situação muito maior. Sara foi vítima de violência sexual e precisa conviver durante a viagem com pessoas ligadas ao trauma, enquanto observa colegas que transformam humilhação e crueldade em entretenimento.

O mérito do roteiro de Mitić e Ognjen Sviličić está em não tratar o silêncio de Sara como uma simples incapacidade de pedir ajuda. Ela permanece calada porque aprendeu que falar pode ser ainda mais perigoso. A vergonha, o julgamento e a pressão dos colegas criaram um ambiente em que desaparecer parece mais seguro do que contar a verdade.

Uma viagem escolar transformada em prisão

“17” mostra Sara durante uma viagem escolar enquanto esconde uma gravidez e enfrenta as consequências da violência.
Foto: Montenegro Film Commission

A viagem para a Grécia poderia representar uma ruptura com a rotina. Para Sara, acontece exatamente o contrário. O hotel, os colegas e até os momentos de diversão funcionam como extensões do ambiente que ela tenta evitar.

A fotografia de Naum Doksevski reforça essa sensação. Os interiores do hotel são dominados por luzes amareladas, sombras e espaços que parecem constantemente apertados. Mesmo quando Sara está cercada por outras pessoas, a câmera frequentemente enfatiza seu isolamento.

Essa escolha impede que o cenário estrangeiro funcione como uma fantasia de liberdade. Sara não consegue escapar simplesmente mudando de lugar. O trauma continua presente e ganha ainda mais força porque um dos responsáveis pela violência está entre os estudantes.

O contraste também funciona como crítica à aparente normalidade da adolescência. Os outros alunos fazem piadas, bebem, flertam e desafiam os professores enquanto Sara carrega uma realidade que ninguém percebe. O filme encontra justamente nessa diferença sua atmosfera mais incômoda.

O silêncio não pertence apenas a Sara

“17” acompanha Sara em uma viagem escolar marcada pela violência, pela vergonha e pela dificuldade de revelar seu trauma.
Foto: Montenegro Film Commission

“17” é mais interessante quando amplia a responsabilidade para além da protagonista. O filme constrói uma comunidade em que adultos percebem comportamentos inadequados, mas raramente conseguem interromper a dinâmica de violência que domina os adolescentes.

As garotas são pressionadas a participar de festas, relacionamentos e situações que podem facilmente ultrapassar seus limites. Ao mesmo tempo, a possibilidade de denunciar alguma coisa vem acompanhada do medo de se tornar alvo de fofocas e humilhações.

É por isso que o silêncio de Sara não parece uma decisão isolada. Ele é produzido pelo ambiente em que ela vive. O filme sugere que uma sociedade pode contribuir para uma tragédia não apenas quando alguém pratica a violência, mas também quando cria condições para que a vítima tenha medo de falar.

Essa abordagem é uma das maiores forças do longa, embora Mitić às vezes torne sua mensagem excessivamente explícita. Algumas situações parecem construídas para provocar choque antes de aprofundar seus personagens, o que aproxima determinadas passagens de um sensacionalismo que o restante do filme consegue evitar.

A violência é poderosa, mas nem sempre convincente

A protagonista de “17”, Sara, tenta esconder a gravidez enquanto convive com colegas durante uma viagem escolar.
Foto: Montenegro Film Commission

O problema fica mais evidente nas cenas em que o comportamento dos rapazes se torna deliberadamente extremo. A brutalidade serve para deixar clara a dimensão do ambiente tóxico em que Sara está inserida, mas algumas sequências ultrapassam o limite da credibilidade.

Isso não significa que o filme deveria suavizar a violência. Pelo contrário: a decisão de não transformar o trauma em algo confortável é coerente com sua proposta. A questão está na maneira como determinadas situações são encenadas. Quando o excesso chama mais atenção para a construção da cena do que para o sofrimento da personagem, o impacto emocional diminui.

Mitić é mais eficaz quando confia nos pequenos gestos. Um olhar de Sara para Filip, o desconforto diante de uma conversa banal ou a tentativa de esconder o corpo sob roupas largas dizem mais sobre sua situação do que algumas das sequências mais agressivas.

Sara começa a recuperar a própria voz

“17” retrata Sara diante das consequências da violência e do silêncio durante uma viagem escolar na Grécia.
Foto: Montenegro Film Commission

A transformação da protagonista acontece de maneira gradual. No início, Sara parece determinada apenas a passar despercebida. Ela evita conversas, mantém distância dos colegas e tenta esconder qualquer sinal da gravidez.

A aproximação com Lina (Martina Danilovska) começa a romper essa estratégia. Lina não é apresentada como uma salvadora, e essa é uma escolha importante. Ela também possui inseguranças e acaba envolvida em situações que revelam como a aparente segurança de alguns adolescentes pode desaparecer rapidamente.

As duas encontram uma espécie de reconhecimento mútuo. Sara percebe que não é a única pessoa vulnerável naquele ambiente, enquanto Lina começa a compreender que a colega que parecia apenas hostil e distante estava tentando sobreviver a algo muito maior.

Quando Sara finalmente revela a gravidez, a cena funciona não porque o segredo desaparece, mas porque ela deixa de carregá-lo completamente sozinha. É uma mudança pequena externamente, mas enorme para a personagem.

Eva Kostić sustenta o filme

Eva Kostić é responsável por boa parte da força de “17”. Sua interpretação evita transformar Sara em uma vítima passiva e encontra uma raiva contida por trás da aparente apatia.

A atriz entende que a personagem não precisa explicar constantemente aquilo que sente. Os momentos em que Sara encontra Filip são especialmente eficientes porque Kostić consegue transmitir uma quantidade enorme de informação sem depender de diálogos explicativos.

Martina Danilovska também encontra o tom adequado para Lina. A personagem poderia funcionar apenas como instrumento para fazer Sara revelar seu segredo, mas a atriz dá a ela personalidade suficiente para que a amizade tenha peso próprio.

É justamente essa relação que impede “17” de ser apenas uma sucessão de situações traumáticas. A solidariedade entre as duas oferece ao filme uma alternativa ao ambiente de julgamento que domina a história.

Um final sobre escolher entre desaparecer e ser vista

A decisão de colocar a fronteira como espaço para a escolha final de Sara é uma das soluções mais simbólicas do filme. Depois de passar boa parte da história tentando esconder aquilo que aconteceu, ela chega a um ponto em que precisa decidir o que fará com essa verdade.

O encerramento não apaga o trauma nem oferece uma solução fácil. O que muda é a posição de Sara diante da própria história. Pela primeira vez, a possibilidade de continuar escondida deixa de ser sua única alternativa.

Essa evolução dá sentido ao título. “17” não é apenas a idade da protagonista. É o momento em que uma garota deveria estar descobrindo quem é, mas acaba sendo obrigada a entender como sobreviver às expectativas e à violência de um ambiente que falhou em protegê-la.

Um drama adolescente que encontra força na amizade

“17” é um primeiro longa-metragem duro e por vezes excessivo. Kosara Mitić não hesita em confrontar o público com situações desconfortáveis, mas algumas delas poderiam ser menos explícitas sem perder sua força.

Quando aposta no choque, o filme ocasionalmente se aproxima do sensacionalismo. Quando observa Sara em silêncio, acompanha sua aproximação com Lina ou deixa a atuação de Eva Kostić conduzir a cena, encontra algo muito mais poderoso.

No fim, a maior força de “17” não está na violência que seus personagens enfrentam, mas na maneira como duas garotas encontram uma na outra a possibilidade de falar. Em uma história construída sobre pessoas que preferem não enxergar, ser ouvido se transforma na primeira forma de resistência.

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