“Invocação do Mal 4: O Último Ritual” chega ao fim de uma era colocando Ed e Lorraine Warren diante de uma ameaça que, desta vez, não diz respeito apenas a outra família. Depois de anos investigando casas assombradas e enfrentando entidades demoníacas, o casal precisa lidar com um caso que se aproxima de sua própria história e, principalmente, de sua filha, Judy.
A mudança de foco é uma escolha natural para uma franquia que já explorou repetidamente a dinâmica de uma família atormentada recebendo a visita dos Warren. O problema é que “O Último Ritual” descobre algo ao mesmo tempo valioso e incômodo: Patrick Wilson e Vera Farmiga continuam sendo mais interessantes do que boa parte dos mistérios que o universo criou ao redor deles.
É justamente essa força que sustenta o filme. Wilson e Farmiga recebem mais espaço para trabalhar a relação entre Ed e Lorraine, enquanto o terror perde parte da capacidade de surpreender. O resultado funciona melhor como despedida de um casal que se tornou a identidade da série do que como uma nova experiência assustadora.
Ed e Lorraine são o verdadeiro coração do filme

Desde o primeiro “Invocação do Mal”, a relação entre os Warren sempre foi um dos elementos mais particulares da franquia. Ed acredita nas visões de Lorraine e age de acordo com elas; Lorraine, por sua vez, encontra nele a segurança necessária para enfrentar aquilo que vê.
“O Último Ritual” entende que essa dinâmica merece mais atenção. O filme encontra momentos de intimidade entre os dois que não dependem de manifestações sobrenaturais para funcionar. A maneira como Ed acompanha a esposa, assim como a preocupação de Lorraine com o efeito de suas habilidades sobre a própria vida, dá ao casal uma dimensão que os casos investigados nem sempre conseguem alcançar.
Wilson e Farmiga também evitam transformar essa relação em sentimentalismo excessivo. Existe carinho, mas também uma estranheza natural entre duas pessoas que passaram décadas convivendo com acontecimentos que a maioria sequer aceitaria como possíveis. Essa combinação ajudou a tornar os Warren figuras tão reconhecíveis dentro do terror contemporâneo.
O terror perde força quando precisa anunciar o próprio susto

Quando o filme se concentra no horror, porém, a experiência é menos consistente. A primeira metade alterna a investigação dos Warren com os acontecimentos envolvendo a família Smurl, criando uma espera prolongada até que as ameaças finalmente se revelem.
O problema não está apenas na previsibilidade dos sustos. Muitas cenas deixam evidente que alguma coisa está prestes a acontecer, reduzindo o espaço para a surpresa. A tensão passa a depender mais da expectativa pelo próximo efeito do que da sensação de que existe algo realmente desconhecido dentro daquele ambiente.
Michael Chaves encontra algumas imagens capazes de romper essa monotonia. O uso de gravações domésticas e, principalmente, dos espelhos cria momentos visualmente interessantes. Há uma atmosfera inquietante em determinadas passagens, mas ela nem sempre sobrevive à maneira como os sustos são executados.
James Wan, responsável pelo primeiro filme, tinha uma linguagem mais agressiva para produzir tensão. Cortes rápidos e movimentos de câmera davam às sequências uma energia particular. Chaves trabalha de maneira menos inventiva, e isso fica evidente justamente quando o roteiro precisa aumentar a intensidade.
A família assombrada perde espaço para os Warren

A história dos Smurl poderia funcionar como mais um caso dentro da mitologia da franquia, mas o filme decide aproximá-la diretamente do passado dos Warren. O elemento que conecta as duas famílias remete a uma investigação antiga do casal e também à história de Judy.
Essa escolha fortalece o vínculo emocional com os protagonistas, mas tem outro efeito: quanto mais o filme se aproxima dos Warren, menos importantes os Smurl parecem se tornar. A família deixa de ser o centro de uma investigação para funcionar principalmente como parte do caminho que conduz Ed e Lorraine ao conflito pessoal.
Não chega a ser uma decisão equivocada. Na verdade, é provavelmente a maneira mais eficiente de justificar um quarto filme protagonizado pela mesma dupla. Ainda assim, ela expõe uma limitação da série: os personagens que deveriam sustentar cada nova história continuam menos interessantes do que aqueles que aparecem para salvá-los.
Vera Farmiga e Patrick Wilson carregam a despedida

É difícil imaginar “O Último Ritual” funcionando da mesma maneira sem Vera Farmiga e Patrick Wilson. Os dois conhecem seus personagens o suficiente para encontrar nuances mesmo quando o roteiro não oferece grandes novidades.
Farmiga dá a Lorraine uma fragilidade que não depende apenas de suas visões. Ela parece cansada do peso de perceber coisas que os outros não conseguem enxergar, mas também sabe que essa capacidade faz parte da maneira como construiu sua vida. Wilson, por outro lado, interpreta Ed como alguém cuja principal força está na confiança que deposita na esposa.
O resultado é uma parceria que continua convincente depois de quatro filmes. Quando os dois estão juntos, a franquia recupera uma identidade que se perde nas cenas construídas exclusivamente em torno de sustos.
Uma franquia que já não encontra o mesmo mistério
O desgaste de “Invocação do Mal” não está apenas na repetição dos recursos de terror. Está também no fato de que o universo já estabeleceu suas próprias regras e, com elas, reduziu parte da sensação de descoberta.
Os Warren acreditam no sobrenatural. O público sabe que as entidades existem. A fé deles não é realmente colocada em dúvida. Assim, uma das possibilidades mais interessantes do conceito original — acompanhar pessoas tentando compreender aquilo que não conseguem explicar — dá lugar a uma estrutura em que quase tudo já parece conhecido.
“O Último Ritual” até tenta aproximar essa ameaça da família dos protagonistas, mas não chega a colocar em risco aquilo que realmente define Ed e Lorraine. A fé permanece intacta, e o vínculo entre os dois também. O perigo aumenta, mas o conflito interno não acompanha essa escalada.
Por isso, a dimensão religiosa, tão importante para a identidade da franquia, funciona aqui mais como confirmação do que como questionamento. O filme reafirma aquilo em que seus protagonistas acreditam, em vez de explorar o que aconteceria se essa certeza começasse a desmoronar.
Uma despedida mais eficiente para os personagens do que para o terror
“Invocação do Mal 4: O Último Ritual” não representa uma reinvenção da franquia. Seu mérito está em reconhecer que, depois de tantos filmes, Ed e Lorraine Warren continuam sendo o elemento que melhor sustenta esse universo.
Isso também revela a principal fragilidade do longa. Quando a história se concentra no casal, existe personalidade, afeto e uma relação construída ao longo de anos. Quando precisa voltar aos mecanismos tradicionais do terror, a experiência se torna mais previsível e menos urgente.
A despedida, portanto, funciona melhor quando deixa os demônios em segundo plano. Wilson e Farmiga lembram por que esses personagens atravessaram tantos filmes enquanto boa parte dos casos ao redor deles foi esquecida. A força está na relação entre os dois, não necessariamente na próxima entidade que aparece no escuro.
“O Último Ritual” termina sem encontrar uma nova maneira de assustar, mas consegue encerrar a trajetória dos Warren olhando para aquilo que sempre foi mais particular na franquia. Ed e Lorraine não permanecem relevantes porque seus casos ficaram cada vez maiores. Permanecem porque, entre uma investigação e outra, o filme construiu uma dupla cuja ligação continua mais convincente do que qualquer aparição sobrenatural.






