Crítica: A Múmia de Lee Cronin aposta em terror autoral, mas falha em impacto e narrativa

Cena de A Múmia mostra garota possuída em ambiente doméstico com atmosfera sombria
Foto: Universal Pictures

A Múmia retorna aos cinemas em uma versão mais sombria e autoral sob comando de Lee Cronin, mas a tentativa de reposicionar o clássico como terror elevado resulta em um filme visualmente ambicioso e narrativamente inconsistente.

Após o fracasso comercial da adaptação estrelada por Tom Cruise, que comprometeu o projeto do chamado “Universo Sombrio”, a Universal passou a investir em releituras mais enxutas de seus monstros clássicos. Produções como O Homem Invisível, Renfield e Abigail apostaram em recortes criativos e custos mais controlados. A nova abordagem de A Múmia segue essa lógica de reinvenção, mas opta por uma escala maior, tanto em ambição estética quanto em duração.

Com 134 minutos, o longa dirigido pelo cineasta irlandês Lee Cronin — conhecido por O Buraco no Chão e A Morte do Demônio: A Ascensão — tenta equilibrar horror psicológico, drama familiar e espetáculo visual. No entanto, essa combinação raramente encontra estabilidade. A narrativa se estende além do necessário para um filme de gênero e perde eficiência ao diluir tensão e ritmo.

A trama acompanha uma família que vive no Novo México após anos fora dos Estados Unidos. O cotidiano muda drasticamente quando a filha, desaparecida no Egito anos antes, é encontrada em circunstâncias inexplicáveis dentro de um sarcófago após um acidente aéreo. De volta ao convívio familiar, a jovem apresenta um estado clínico grave, inicialmente tratado como síndrome do encarceramento, mas rapidamente evolui para algo mais perturbador.

Interpretados por Jack Reynor e Laia Costa, os pais tentam lidar com o retorno da filha enquanto sinais físicos e comportamentais indicam que algo está profundamente errado. A transformação gradual da garota conduz o filme para um território mais grotesco, com efeitos que priorizam impacto visual, embora nem sempre convincentes. Em paralelo, uma investigação no Egito conduzida por uma personagem vivida por May Calamawy acrescenta um segundo eixo narrativo que, apesar de interessante, contribui para a sensação de excesso.

A proposta de Cronin se distancia das versões anteriores do personagem, especialmente da fase protagonizada por Brendan Fraser, conhecida pelo tom aventureiro e acessível. Aqui, a intenção é claramente mais sombria, com referências a clássicos como O Exorcista e A Profecia. Ainda assim, o filme demonstra dificuldade em sustentar o suspense e construir envolvimento emocional com seus personagens.

Embora apresente momentos de criatividade visual e sequências de forte impacto, a obra revela uma dependência excessiva de referências a outros filmes do gênero. Elementos que poderiam reforçar identidade própria acabam diluídos em uma abordagem que prioriza choque e escala, mas deixa em segundo plano a construção dramática e a coerência narrativa.

A estratégia de destacar o diretor como principal atrativo também reflete uma tendência recente da indústria, que busca valorizar cineastas como marca. Nesse caso, porém, a aposta parece prematura. Apesar do talento visual evidente, Cronin ainda não demonstra domínio completo sobre estrutura e ritmo para sustentar uma produção dessa magnitude.

No fim, A Múmia se apresenta como uma releitura ambiciosa que tenta reposicionar um ícone do cinema dentro do terror contemporâneo. Ainda que traga qualidades técnicas e uma proposta diferenciada, o resultado final evidencia que estilo e escala não substituem um roteiro sólido e bem resolvido.

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