“You Can See Everything”: Amanda Seyfried questiona versão de Elizabeth Holmes em documentário da A24

Amanda Seyfried participa de You Can See Everything, documentário da A24 sobre Elizabeth Holmes.
Foto: A24

Alerta de Spoilers: Este texto contém spoilers do filme “You Can See Everything”.

O documentário “You Can See Everything” coloca Amanda Seyfried diante de uma situação incomum: a atriz, que interpretou Elizabeth Holmes na série “The Dropout”, é convocada para recriar conversas envolvendo a própria empresária condenada por fraude. A participação transforma o filme de Lance Oppenheim em uma discussão sobre os limites entre realidade, interpretação e a imagem pública de Holmes.

Produzido por Nathan Fielder, o longa acompanha os 34 dias anteriores ao início da pena de 11 anos de prisão da fundadora da Theranos. A narrativa ganha outra dimensão quando Seyfried aparece na segunda metade para comentar as interações entre Fielder e Holmes, além de reencenar situações que não foram registradas durante as filmagens.

A atriz não está sozinha nessa tarefa. Christopher Abbott, conhecido por “East of Eden”, interpreta Billy Evans, companheiro de Holmes. Juntos, os dois recriam uma negociação entre a equipe do documentário e o casal antes do início da produção. Na cena, Evans exige pagamento para participar do filme, enquanto Fielder e Oppenheim argumentam que remunerar os envolvidos comprometeria a credibilidade do projeto. A reconstituição termina com a equipe da A24 concordando em pagar.

A negociação levanta uma dúvida que acompanha o restante do documentário: Holmes sabia da exigência financeira ou Evans agiu por conta própria? Em uma conversa posterior com Fielder, já na prisão, a empresária afirma que desconhecia o acordo. O filme também mostra uma reconstituição na qual Evans desiste de receber o dinheiro, mas não oferece uma explicação definitiva para a decisão.

O passado de Seyfried com a personagem se torna ainda mais importante quando Holmes critica “The Dropout”. Durante a conversa com Fielder, a empresária questiona a maneira como a série retratou sua história e afirma que outras mulheres, incluindo a atriz e a equipe da produção, contribuíram para uma representação que considera injusta.

Seyfried reage às acusações e defende que a série é uma obra de ficção baseada em extensa pesquisa, não uma reprodução literal da vida de Holmes. A atriz também questiona até que ponto Fielder está apresentando uma versão mais favorável da empresária nas cenas reconstruídas. O documentário, assim, coloca em dúvida não apenas o relato de Holmes, mas também as escolhas de quem tenta contar sua história.

Em um dos momentos mais metalinguísticos do filme, Seyfried lê o roteiro preparado a partir de uma conversa real entre Fielder e Holmes. A atriz demonstra desconforto ao encontrar críticas dirigidas à sua interpretação em “The Dropout” e sustenta que a responsabilidade pelas consequências da história pertence à própria empresária, não à dramatização televisiva.

A participação de Seyfried também evidencia como uma interpretação pode se confundir com a pessoa retratada. A atriz conta que muitos espectadores acreditaram que ela era Holmes durante a divulgação da série. No documentário, essa confusão ganha peso porque a própria empresária questiona a autenticidade das representações feitas sobre sua trajetória.

O filme termina retomando uma declaração atribuída a Holmes em uma entrevista ao The New York Times sobre “The Dropout”. Segundo a citação exibida, a empresária afirmou que a série não a representava diretamente, mas mostrava uma personagem que ela própria havia criado. Holmes contesta a formulação e sustenta que o jornal alterou suas palavras; o repórter, por sua vez, manteve a versão publicada.

Essa divergência resume a questão central de “You Can See Everything”: mesmo diante de gravações, depoimentos e reconstituições, a fronteira entre o que aconteceu e a forma como os acontecimentos são apresentados permanece em disputa. Ao incluir Seyfried no próprio documentário, Fielder transforma a atriz em parte desse questionamento e amplia o debate sobre quem controla a narrativa de uma história real.

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