Há uma ironia interessante no centro de The Boroughs. A série coloca um grupo de aposentados no meio de uma história de terror e ficção científica justamente em uma época em que personagens idosos costumam ser tratados como coadjuvantes, vítimas ou figuras de sabedoria destinadas a orientar protagonistas mais jovens. Aqui, acontece o contrário. Eles são os protagonistas, e é justamente a experiência acumulada ao longo de décadas que permite que enxerguem coisas que os demais prefeririam ignorar.
Criada por Jeffrey Addiss e Will Matthews, com produção executiva dos irmãos Duffer, The Boroughs começa como um drama sobre uma comunidade de aposentados e aos poucos revela que existe algo muito mais estranho acontecendo naquele lugar. A primeira temporada acompanha oito episódios em que a aparente tranquilidade de um condomínio no Novo México serve de fachada para uma ameaça que mistura horror, ficção científica e mistério.
A série poderia facilmente se apoiar apenas na curiosidade provocada por seus elementos sobrenaturais. Há monstros, mortes, perseguições, tiroteios, corvos e uma substância misteriosa, mas o que torna The Boroughs realmente interessante está menos na explicação desses fenômenos e mais na maneira como eles interferem na vida de pessoas que já carregam suas próprias histórias de perda.
Uma história de terror sobre envelhecer
Sam Cooper (Alfred Molina) chega ao The Boroughs depois da morte da esposa, Lily (Jane Kaczmarek), e não demonstra qualquer entusiasmo diante da nova fase. Sua mudança para o condomínio foi planejada pelo casal, mas a morte dela transforma aquilo que deveria ser um recomeço em uma espécie de lembrança permanente daquilo que ele perdeu.
Sam é um homem irritado, fechado e pouco interessado em fazer novos amigos. A princípio, parece apenas o típico personagem rabugento que precisa aprender a conviver com uma comunidade da qual não gostaria de fazer parte. A série, porém, usa essa resistência para construir algo mais melancólico. Sam não está apenas se mudando de cidade. Ele está tentando descobrir como continuar existindo depois que uma parte fundamental de sua vida desapareceu.
Esse sentimento também aparece nos outros moradores. Jack (Bill Pullman), Wally (Denis O’Hare), Judy (Alfre Woodard), Art (Clarke Peters) e Renee (Geena Davis) possuem personalidades e trajetórias diferentes, mas todos estão lidando, de alguma maneira, com a passagem do tempo. Alguns enfrentam doenças. Outros convivem com perdas. Há ainda aqueles que simplesmente precisam aceitar que o corpo já não responde como antes.
É uma abordagem eficiente porque o envelhecimento não aparece apenas como uma questão física. The Boroughs trata a velhice como uma experiência emocional. Existe o luto por pessoas que morreram, mas também por versões anteriores de si mesmo, por planos que não aconteceram e pela sensação de que determinadas possibilidades ficaram definitivamente para trás.
Quando os idosos deixam de ser subestimados
A ameaça sobrenatural ganha força justamente porque os personagens são constantemente subestimados. Existe uma expectativa social de que pessoas mais velhas sejam frágeis, confusas ou incapazes de acompanhar situações perigosas. A série transforma essa percepção em parte de sua própria narrativa.
Sam e seus vizinhos não são guerreiros profissionais nem possuem habilidades extraordinárias. São pessoas que passaram décadas vivendo, trabalhando, criando filhos, perdendo amigos e enfrentando problemas que não podem ser resolvidos com uma espada ou um superpoder. Quando o impossível começa a invadir sua rotina, eles carregam para o confronto algo que os personagens mais jovens muitas vezes ainda não possuem: perspectiva.
Essa escolha também dá um sabor diferente às cenas de ação. O espectador não está acompanhando personagens que parecem ter sido preparados para enfrentar monstros desde o primeiro episódio. Está vendo aposentados tentando entender o que está acontecendo e descobrindo que a idade que os torna vulneráveis também lhes deu uma resistência que não pode ser medida apenas pela força física.
The Boroughs entende que envelhecer não significa deixar de sentir medo. Pelo contrário. Seus personagens sabem melhor do que ninguém que a vida é limitada. A coragem deles nasce justamente dessa consciência.
O mistério funciona melhor quando permanece em segundo plano
A série toma uma decisão acertada ao não revelar imediatamente a natureza de sua ameaça. Há elementos suficientes para despertar a curiosidade, mas a história evita transformar a ficção científica em uma sequência de explicações que interromperia o desenvolvimento dos personagens.
Isso também ajuda a preservar a sensação de estranhamento. O condomínio parece um lugar banal, com suas casas, piscinas, campos de golfe e restaurantes. Aos poucos, porém, pequenas anormalidades começam a contaminar essa normalidade. O contraste entre a paisagem organizada da comunidade e aquilo que existe por trás dela cria uma atmosfera particularmente eficaz.
O terror não depende apenas da aparência dos monstros. Ele nasce da possibilidade de que algo esteja errado em um espaço construído justamente para representar conforto, segurança e estabilidade. O lugar onde essas pessoas deveriam passar seus últimos anos tranquilamente passa a esconder uma ameaça que nenhum deles consegue compreender.
É uma boa maneira de utilizar a ficção científica como extensão do drama. O fantástico não existe apenas para produzir espetáculo. Ele funciona como uma metáfora para aquilo que os personagens não conseguem controlar: a deterioração do corpo, a perda da autonomia e a aproximação inevitável da morte.
Um elenco que sustenta a proposta
A força de The Boroughs também depende bastante do elenco. Alfred Molina consegue transformar a irritação de Sam em algo mais complexo do que simples mau humor. Existe uma tristeza constante por trás de sua resistência, e o ator encontra espaço para mostrar esse personagem se reconstruindo lentamente.
Bill Pullman funciona muito bem como contraponto. Jack representa a possibilidade de que a vida ainda possa oferecer alguma coisa depois de tantas perdas. Ele não trata Sam como um homem quebrado, mas como um novo vizinho que merece ser recebido. A amizade entre os dois ajuda a impedir que a série fique presa exclusivamente à melancolia.
Denis O’Hare, Alfre Woodard, Clarke Peters e Geena Davis também ajudam a transformar o condomínio em uma comunidade de verdade. Cada personagem possui sua própria relação com o envelhecimento, e a diversidade dessas experiências impede que a série trate a terceira idade como uma condição homogênea.
É justamente essa dimensão coletiva que torna a história mais interessante. The Boroughs não apresenta apenas um protagonista envelhecido. Ela constrói uma pequena sociedade formada por pessoas que chegaram a esse estágio da vida por caminhos completamente diferentes.
Entre o coração e a fórmula
Nem tudo funciona com a mesma força. A série tem uma quantidade considerável de elementos narrativos para administrar e, em alguns momentos, a mistura entre drama familiar, terror e ficção científica ameaça ficar excessivamente calculada. O mistério demora a entregar algumas respostas, enquanto determinados personagens poderiam receber mais espaço para que seus conflitos fossem desenvolvidos com maior profundidade.
Também existe uma familiaridade inevitável na construção da ameaça. The Boroughs conhece bem os mecanismos das séries de mistério contemporâneas e, embora utilize seus clichês com competência, nem sempre consegue reinventá-los. A originalidade está muito mais na perspectiva escolhida do que na estrutura do suspense.
Isso, porém, não diminui seu principal mérito. A série sabe que sua história não depende apenas da pergunta sobre o que está acontecendo naquele condomínio. A questão mais importante é o que essas pessoas farão quando forem obrigadas a confrontar algo que parece maior do que elas.
E esse é um território particularmente fértil para uma produção de ficção científica. O gênero sempre encontrou maneiras de falar sobre medo, identidade, morte e transformação por meio do fantástico. The Boroughs acrescenta uma perspectiva pouco explorada ao colocar esses temas nas mãos de personagens que já passaram boa parte da vida lidando com eles.
Uma aventura sobre o que ainda resta pela frente
O que torna The Boroughs mais cativante é justamente a contradição entre sua aparência e seu verdadeiro assunto. Por fora, temos uma série sobre aposentados enfrentando criaturas e acontecimentos inexplicáveis. Por dentro, existe uma história sobre pessoas tentando descobrir se ainda há espaço para aventura, amizade e descoberta quando a sociedade começa a tratá-las como se já tivessem chegado ao fim da própria história.
A série não ignora a fragilidade de seus personagens. Pelo contrário, faz dela uma parte importante da narrativa. Doenças, perdas e limitações físicas estão presentes o tempo inteiro, mas não definem completamente essas pessoas. Elas continuam capazes de sentir curiosidade, raiva, desejo, humor, medo e esperança.
Esse equilíbrio é o que impede The Boroughs de se tornar apenas uma produção simpática sobre idosos. Existe afeto, mas também existe uma crítica clara à maneira como a sociedade transforma o envelhecimento em sinônimo de inutilidade. Ao colocar seus personagens diante de uma ameaça extraordinária, a série devolve a eles aquilo que tantas histórias retiram: protagonismo.
The Boroughs talvez não tenha ainda a precisão narrativa das grandes referências do gênero, e sua ambição pode ocasionalmente pesar sobre o ritmo. Mas existe uma sinceridade rara em sua proposta. Ao transformar aposentados em protagonistas de uma aventura de ficção científica, a série encontra uma maneira simples e eficiente de lembrar que envelhecer não encerra a capacidade de viver histórias extraordinárias.
Mais do que uma história sobre monstros escondidos em uma comunidade aparentemente tranquila, The Boroughs é uma série sobre pessoas que continuam tentando encontrar sentido depois que boa parte daquilo que conheciam ficou para trás. E talvez seja justamente por isso que sua aventura fantástica tenha um peso tão humano.
The Boroughs está disponível na Netflix.







