Mother Mary começa como o tipo de filme que David Lowery parecia destinado a fazer: um drama sobre artistas, fama e relações destruídas pelo tempo. No centro da história está uma estrela pop mundialmente famosa, interpretada por Anne Hathaway, e a estilista Sam Anselm (Michaela Coel), a mulher responsável por criar a imagem visual que transformou essa cantora em um fenômeno. O reencontro entre as duas, depois de uma década separadas, sugere um estudo íntimo sobre dependência criativa, ressentimento e a dificuldade de separar a pessoa da persona.
Durante boa parte de sua duração, Mother Mary funciona justamente porque reduz sua escala. Quando Hathaway e Coel dividem a tela em conversas sobre o passado, sobre a parceria que acabou e sobre tudo aquilo que permaneceu sem ser dito, o filme encontra uma força emocional rara. O problema é que David Lowery parece não confiar nessa simplicidade e decide transformar uma história sobre duas pessoas em uma experiência cada vez mais abstrata, cheia de símbolos religiosos, imagens fantasiosas e significados que acabam afastando o público.
Anne Hathaway e Michaela Coel sustentam o melhor do filme

Anne Hathaway interpreta Mother Mary como uma artista que construiu uma identidade maior do que ela mesma. Sua personagem não é apenas uma cantora famosa, mas uma figura criada para ser adorada, uma mistura de celebridade, ícone religioso e produto cultural. Os figurinos exagerados e a estética grandiosa fazem parte de uma armadura que esconde uma mulher insegura sobre o que existe quando os holofotes desaparecem.
A atriz entende que o desafio da personagem não está em interpretar uma estrela pop, mas alguém presa à própria criação. Mary precisa continuar alimentando uma imagem pública que talvez tenha consumido tudo aquilo que existia de verdadeiro nela.
Michaela Coel, por outro lado, interpreta Sam como alguém que ficou do lado de fora dessa fantasia. Ela ajudou a construir a imagem de Mary, mas nunca recebeu o mesmo reconhecimento. Existe uma amargura silenciosa na personagem, uma sensação de ter sido fundamental para uma história da qual acabou excluída.
A química entre as duas atrizes é o principal motivo pelo qual o filme funciona em seus melhores momentos. A relação entre Mary e Sam possui uma ambiguidade interessante, porque Lowery nunca transforma a conexão entre elas em algo simples. Existe amizade, amor, dependência e uma ligação artística que ultrapassa qualquer definição.
O filme perde força quando tenta explicar demais

O grande problema de Mother Mary aparece quando David Lowery abandona esse conflito humano e começa a procurar uma dimensão maior para a história. A relação entre as duas personagens já carregava uma carga emocional suficiente, mas o filme passa a buscar respostas em uma narrativa quase espiritual, como se a conexão entre elas precisasse representar algo universal.
A partir desse momento, o longa se torna cada vez mais distante. Elementos sobrenaturais surgem, imagens passam a funcionar mais como metáforas abertas do que como parte orgânica da narrativa, e aquilo que antes era uma história sobre duas mulheres tentando entender uma separação passa a parecer uma tentativa de construir uma grande reflexão sobre arte, fama e transcendência.
O problema não está na ambição de Lowery, mas na maneira como essas ideias substituem o drama que sustentava o filme. Mother Mary parece mais interessado em ser interpretado do que em ser sentido.
Uma fantasia pop que se perde no próprio excesso

Visualmente, David Lowery cria um dos seus trabalhos mais ousados. A mistura entre moda, música e referências religiosas transforma a carreira de Mary em uma espécie de espetáculo de devoção moderna. A personagem não é tratada apenas como uma cantora, mas como alguém que se tornou um símbolo para um público que precisa acreditar nela.
Essa abordagem combina com a ideia central do filme: a fama como uma forma de culto. Mas, enquanto a estética impressiona, a narrativa começa a perder clareza. O filme adiciona camadas de simbolismo sem conseguir transformar essas imagens em algo emocionalmente significativo.

As apresentações musicais também não alcançam a força esperada. Existe uma tentativa de criar um universo pop grandioso, mas a música nunca possui o impacto necessário para convencer que estamos diante de uma artista capaz de dominar multidões.

Mother Mary é um filme curioso porque quase encontra uma grande história. A relação entre uma estrela pop que perdeu contato com sua própria identidade e a artista que ajudou a criá-la tinha potencial para ser um drama poderoso sobre fama, ego e criação. Anne Hathaway e Michaela Coel entregam personagens interessantes o suficiente para sustentar essa proposta.
Mas David Lowery transforma esse conflito em algo muito mais complicado do que precisava ser. Ao trocar a intimidade pelo excesso simbólico, Mother Mary acaba preso em sua própria ambição: um filme visualmente impressionante, cheio de ideias, mas que se distancia justamente da emoção que poderia torná-lo memorável.



