Transformar personagens clássicos da literatura infantil em vilões de filmes de terror já virou uma marca registrada do diretor Rhys Frake-Waterfield. Depois de dividir opiniões com Winnie-the-Pooh: Sangue e Mel, o cineasta retorna ao chamado Universo da Infância Distorcida com Pinóquio: Sem Cordas (“Pinocchio: Unstrung”), uma releitura que aposta na violência gráfica e nos efeitos práticos para revisitar a criação de Carlo Collodi. Embora entregue momentos visualmente criativos, o longa encontra dificuldades para sustentar sua própria narrativa.
Ao contrário da versão popularizada pela Disney, o novo filme abraça o lado mais sombrio da história original. Gepeto deixa de ser apenas um carpinteiro para assumir o papel de um inventor obcecado em criar vida artificial, enquanto Pinóquio surge como uma criatura instável, incapaz de compreender os limites entre proteção, afeto e violência. A proposta tem potencial, mas o roteiro raramente desenvolve essas ideias além do básico.
Violência criativa supera uma história pouco inspirada

Grande parte do entretenimento está justamente na forma como o diretor conduz as sequências de assassinato. Cada aparição de Pinóquio transforma situações comuns em momentos de horror exagerado, explorando mutilações, sangue e mortes elaboradas sem esconder a inspiração nos slashers clássicos.
Apesar disso, os acontecimentos parecem existir apenas para conectar uma cena de violência à outra. Os personagens recebem pouco desenvolvimento, os conflitos avançam rapidamente e muitas decisões narrativas surgem apenas para justificar novas mortes. Falta uma construção dramática capaz de tornar a ameaça realmente envolvente.
Os efeitos práticos são o grande destaque da produção

Se existe um elemento que diferencia Pinóquio: Sem Cordas de outras produções independentes do gênero, é o trabalho realizado com o boneco. O uso de animatrônicos e maquiagem prática cria uma presença física bastante convincente para o personagem, conferindo personalidade a uma criatura que dificilmente teria o mesmo impacto utilizando apenas computação gráfica.
O design cheio de imperfeições, rachaduras e farpas reforça a aparência inquietante do protagonista e demonstra um cuidado técnico superior ao restante da produção. Mesmo quando o roteiro perde força, a direção encontra maneiras interessantes de explorar visualmente esse Pinóquio distorcido.
Rhys Frake-Waterfield começa a encontrar sua identidade

Ainda que o filme repita muitos dos problemas presentes em trabalhos anteriores do diretor, existe uma evolução perceptível na condução das cenas. A fotografia explora melhor os ambientes góticos, a atmosfera é mais consistente e algumas escolhas de enquadramento ajudam a criar tensão sem depender exclusivamente dos sustos repentinos.
Também chama atenção a participação de Robert Englund, que faz uma breve aparição capaz de agradar aos fãs do terror, enquanto Richard Brake entrega presença suficiente para sustentar o papel de Gepeto nessa versão bastante diferente da conhecida pelo grande público.
Vale a pena assistir?

Pinóquio: Sem Cordas dificilmente convencerá quem procura uma reinvenção inteligente do conto clássico. O roteiro permanece superficial e previsível, sacrificando desenvolvimento em favor de cenas de violência que, embora criativas, não conseguem sustentar todo o longa.
Ainda assim, para quem acompanha o chamado Universo da Infância Distorcida ou aprecia produções independentes de horror com forte uso de efeitos práticos, o filme oferece diversão suficiente. Não representa um grande avanço para a franquia criada por Rhys Frake-Waterfield, mas demonstra que o diretor começa a encontrar um estilo próprio dentro desse peculiar subgênero do terror.




