Crítica: “Unabomber” encontra seu melhor momento longe da investigação do FBI

Shailene Woodley interpreta a agente do FBI Joanne Miller em “Unabomber”.
Foto: Netflix

“Unabomber” parte de uma história que já possui elementos suficientes para sustentar um thriller. O filme acompanha a investigação que levou à captura de Ted Kaczynski e, paralelamente, retorna à juventude do terrorista para tentar compreender o caminho que o levou ao extremismo. A proposta é promissora, mas a execução deixa evidente que as duas histórias nem sempre sabem o que fazer uma com a outra.

Harvard é a parte mais interessante do filme

“Unabomber” acompanha a juventude de Ted Kaczynski em Harvard.
Foto: Netflix

Dirigido por Janus Metz, o longa alterna entre o trabalho do FBI nos anos 1990 e o período em que Kaczynski estudava em Harvard, aos 16 anos. A primeira linha aposta nos mecanismos conhecidos do procedural policial. A segunda tenta construir uma espécie de origem psicológica para o personagem. O problema é que os dois períodos raramente se enriquecem mutuamente, fazendo com que a narrativa pareça dividida entre dois filmes de interesses diferentes.

A parte ambientada em Harvard é a mais interessante. Jacob Tremblay interpreta Kaczynski ainda adolescente, retratado como um estudante excepcionalmente inteligente, mas pouco preparado para lidar com as relações sociais e com o ambiente universitário. É nesse momento que ele conhece o professor Henry Murray, vivido por Russell Crowe.

Murray conduz um controverso experimento psicológico que coloca Kaczynski diante de situações deliberadamente hostis. O estudo se torna uma das principais ferramentas usadas pelo roteiro para tentar estabelecer uma ligação entre a juventude do personagem e sua transformação posterior.

É justamente aí que “Unabomber” encontra seu dilema mais interessante. O experimento permite discutir abuso psicológico, isolamento e os limites éticos da pesquisa científica, mas o filme parece interessado demais em utilizá-lo como explicação para aquilo que Kaczynski faria décadas depois. A conexão dramática existe, mas não é desenvolvida com profundidade suficiente para sustentar todo o peso que recebe.

Russell Crowe é quem melhor aproveita esse material. Seu Henry Murray possui uma combinação desconfortável de cordialidade e manipulação, o que torna o professor uma figura mais intrigante do que a própria investigação policial. Annabelle Wallis, como Christiana Morgan, também participa dessa dinâmica, reforçando o caráter questionável do experimento.

O roteiro, porém, simplifica parte dessa discussão ao transformar a experiência em uma espécie de peça explicativa para a trajetória de Kaczynski. Isso é particularmente problemático porque o próprio filme não consegue demonstrar de forma convincente que aquele episódio tenha sido decisivo para sua radicalização.

O problema da investigação do FBI

Russell Crowe interpreta o professor Henry Murray em “Unabomber”.
Foto: Netflix

Nos anos 1990, a produção acompanha Joanne Miller, agente fictícia do FBI interpretada por Shailene Woodley. Sua investigação ganha força quando ela percebe que o manifesto de Kaczynski pode oferecer pistas linguísticas capazes de aproximar as autoridades do responsável pelos atentados.

A ideia poderia produzir um suspense eficiente, mas Miller frequentemente parece avançar pelo caso com facilidade excessiva. A personagem enfrenta resistência dentro do próprio FBI, mas o roteiro acaba concentrando nela boa parte das descobertas importantes. O parceiro Leo, interpretado por Alexander Ludwig, funciona principalmente como obstáculo e cético da investigação, sem ganhar complexidade suficiente para equilibrar essa dinâmica.

É nesse ponto que “Unabomber” mais se aproxima de uma fórmula convencional de true crime. O caso real já possui uma investigação extraordinária, mas o filme prefere transformar suas etapas em uma sucessão relativamente previsível de pistas e descobertas. Em vez de aumentar a tensão, essa simplificação reduz a sensação de perigo e descoberta.

Uma explicação simplificada para Kaczynski

A comparação com “Ted K”, filme de 2021 dirigido por Tony Stone e estrelado por Sharlto Copley, ajuda a entender a principal diferença de abordagem. Enquanto aquele longa evitava oferecer uma explicação confortável para Kaczynski e apostava em uma experiência mais desconcertante, “Unabomber” procura organizar o personagem dentro de uma narrativa de causa e consequência.

Essa escolha também limita Jacob Tremblay. O ator constrói um jovem desconectado e vulnerável, mas o roteiro frequentemente reduz Kaczynski a sinais de isolamento e comportamento antissocial. Em vez de permitir que o personagem permaneça contraditório e difícil de compreender, o filme parece preocupado em mostrar ao espectador o que ele deverá se tornar.

O resultado é uma caracterização que explica demais e investiga de menos. Um personagem como Kaczynski poderia ser abordado justamente pela dificuldade de encontrar uma única origem para suas escolhas. “Unabomber”, entretanto, tenta oferecer ao público uma trajetória psicológica relativamente organizada, mesmo quando as próprias evidências apresentadas pelo filme não sustentam completamente essa leitura.

Um true crime sem muita tensão

Janus Metz conduz a produção com competência técnica, mas também recorre a soluções familiares ao gênero. A abertura, com a reconstituição de um atentado, funciona quase como uma apresentação do caso para quem não conhece a história. É uma escolha funcional, mas pouco inventiva, e antecipa o principal problema do filme: raramente há uma decisão formal capaz de surpreender.

Isso não significa que “Unabomber” seja desprovido de interesse. O material de Harvard oferece uma discussão relevante sobre experimentos psicológicos, ética científica e isolamento social, enquanto Russell Crowe encontra um personagem com ambiguidades suficientes para dominar as cenas em que aparece. O problema é que esses elementos mais interessantes ficam presos dentro de uma estrutura policial muito mais convencional.

Vale a pena assistir?

Jacob Tremblay interpreta Ted Kaczynski jovem em “Unabomber”.
Foto: Netflix

Para quem procura uma reconstrução acessível do caso Unabomber, o filme pode funcionar como porta de entrada. Para quem espera um thriller investigativo capaz de transformar uma história conhecida em uma experiência realmente tensa, há pouco aqui além da força natural do próprio caso.

No fim, “Unabomber” é mais interessante quando abandona a necessidade de explicar Ted Kaczynski e observa as circunstâncias ao redor dele. Quando tenta transformar essas circunstâncias em uma resposta definitiva para sua radicalização, perde justamente a complexidade que poderia fazer dessa história algo mais perturbador e memorável.

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