Crítica: “O Sobrevivente” descobre que sua distopia ficou perto demais da realidade

Glen Powell interpreta Ben Richards em “O Sobrevivente”, adaptação do romance de Stephen King.
Foto: Lionsgate

“O Sobrevivente” parte de uma premissa que já não precisa de muito esforço para parecer plausível. Um homem sem dinheiro aceita participar de um programa de televisão no qual precisa permanecer vivo enquanto assassinos profissionais o perseguem por todo o país. O público acompanha tudo, torce e transforma cada morte em espetáculo. Na adaptação de Edgar Wright para o romance de Stephen King, o que antes parecia uma previsão sobre o futuro agora soa perigosamente próximo do presente.

É dessa proximidade que nasce a principal força desta versão. Wright não apenas atualiza a história, mas encontra no material de King uma maneira de observar uma sociedade acostumada a transformar violência em conteúdo e pessoas em personagens. O resultado é um filme ágil, visualmente inventivo e mais divertido que o longa de 1987, embora sua crítica seja menos contundente do que poderia.

Glen Powell encontra o homem por trás do espetáculo

Glen Powell como Ben Richards em cena de “O Sobrevivente”, dirigido por Edgar Wright.
Foto: Lionsgate

Ben Richards, interpretado por Glen Powell, começa como um homem encurralado pelas circunstâncias. Sem dinheiro para cuidar da filha e incapaz de aceitar regras que considera injustas, ele chega à televisão procurando apenas uma saída financeira. Dan Killian (Josh Brolin), responsável por encontrar novos participantes, percebe seu potencial e o coloca em “O Sobrevivente”, o programa mais perigoso da emissora.

Durante trinta dias, Ben precisa escapar dos Caçadores, comandados por Evan McCone (Lee Pace). Cada sobrevivência aumenta sua popularidade e transforma sua fuga em narrativa. A televisão não apenas acompanha o personagem: passa a definir quem ele é para o público.

Powell sustenta bem essa transformação. Seu carisma natural é substituído por uma energia mais agressiva e desconfiada, sem eliminar a fragilidade do personagem. Ben funciona justamente porque não parece um herói pronto para desafiar o sistema, mas alguém que descobre aos poucos que sua própria imagem pode se tornar uma ameaça para aqueles que controlam o espetáculo.

Wright transforma a crítica em perseguição

Ben Richards, interpretado por Glen Powell, foge dos assassinos em “O Sobrevivente”.
Foto: Lionsgate

A grande vantagem de Wright está em colocar essa discussão dentro da própria linguagem do filme. “O Sobrevivente” não se comporta como um manifesto austero. Ele corre, corta, explode e transforma as perseguições em espetáculo. Uma sequência em um hotel resume bem essa abordagem: destruição, improviso e violência ocupam a tela com uma energia quase cartunesca.

Essa escolha torna o filme muito divertido, mas também cria uma contradição interessante. A produção critica uma sociedade que consome violência enquanto oferece exatamente esse tipo de entretenimento ao espectador. A diferença está na consciência de quem filma, não necessariamente na experiência de quem assiste.

Colman Domingo aproveita essa contradição como Bobby T., o apresentador que transforma crueldade em audiência. Seu sorriso permanente e sua cordialidade calculada tornam o personagem mais incômodo justamente porque ele entende que ninguém precisa ser obrigado a assistir. Basta oferecer uma história suficientemente atraente.

Uma distopia que ficou perto demais da realidade

Glen Powell aparece como Ben Richards em “O Sobrevivente”, thriller sobre violência transformada em espetáculo.
Foto: Lionsgate

O maior obstáculo da adaptação está justamente naquilo que tornou a obra de King tão relevante. Nos anos 1980, a ideia de um programa transformando assassinatos em entretenimento carregava o peso de uma advertência. Hoje, a distância entre ficção e realidade diminuiu consideravelmente.

A televisão transformou acontecimentos reais em espetáculo há décadas, enquanto as redes sociais fizeram da exposição pessoal uma moeda cotidiana. Por isso, uma plateia vibrando diante da morte de participantes já não parece tão absurda. Wright percebe essa proximidade, mas responde a ela principalmente acelerando o filme.

Perseguições, personagens excêntricos, identidades falsas e novos elementos de resistência tornam a jornada mais movimentada, mas também desviam parte da atenção do aspecto mais perturbador da história: o inimigo não está apenas atrás de Ben. Ele também está diante das câmeras.

O homem que o sistema não consegue editar

Ben Richards enfrenta uma perseguição televisionada em “O Sobrevivente”, filme de Edgar Wright.
Foto: Lionsgate

A relação entre Ben e Dan Killian resume bem essa disputa. Killian não precisa acreditar no sistema que administra; precisa apenas saber como vendê-lo. Ben começa interessado no dinheiro e termina percebendo que sua sobrevivência pode produzir algo que a emissora não controla completamente: identificação.

O slogan “Richards vive!” nasce desse processo. O participante que deveria servir apenas como entretenimento passa a representar uma possibilidade de resistência. Mas até essa rebeldia pode ser transformada em mercadoria, revelando a ideia mais interessante do filme: o espetáculo é capaz de absorver até aquilo que pretende destruí-lo.

“O Sobrevivente” funciona melhor como thriller de ação do que como profecia. Edgar Wright entrega uma versão mais inventiva e movimentada da história, enquanto Glen Powell encontra um equilíbrio convincente entre fragilidade e brutalidade. O filme só não explora completamente a força de sua própria premissa.

Talvez essa seja a ironia mais forte da nova versão. A história nasceu imaginando um futuro em que a violência precisaria virar espetáculo para manter uma sociedade entretida. Quatro décadas depois, essa ideia já não parece tão distante. “O Sobrevivente” percebe isso, mas prefere correr em vez de parar diante do espelho que sua própria premissa coloca na nossa frente.

Leia Também

Leitura obrigatória

Warner Bros. confirma que Wonka 2 continua em desenvolvimento após rumores de adiamento indefinido.

Wonka 2: Warner Bros. desmente adiamento e confirma que sequência continua em desenvolvimento

Wonka 2 continua em desenvolvimento após a Warner Bros. negar rumores de adiamento indefinido da sequência estrelada por Timothée Chalamet.

Recomendado para você