“Zootopia 2” entende que não precisava simplesmente repetir a fórmula do primeiro filme. Nove anos depois, a Disney Animation retorna à cidade habitada por animais antropomórficos para ampliar seu universo e colocar répteis no centro de uma história que continua usando investigação policial, humor e comentário social como principais ferramentas.
Judy Hopps (Ginnifer Goodwin) e Nick Wilde (Jason Bateman) continuam sendo o coração da franquia. Agora trabalhando oficialmente como parceiros na polícia, os dois precisam lidar com uma convivência que está longe de ser simples. Judy leva tudo a sério demais; Nick prefere manter uma distância irônica das situações. A diferença continua rendendo boas piadas, mas também sustenta a principal mudança temática da sequência.
Enquanto o primeiro filme tratava principalmente da construção da confiança entre os dois, “Zootopia 2” está mais interessado no respeito. A diferença parece pequena, mas permite que a história explore uma relação que já não é de desconhecidos tentando entender um ao outro. Nick e Judy agora precisam descobrir como trabalhar juntos mesmo quando suas maneiras de enxergar o mundo entram em conflito.
Uma nova espécie entra em cena

A investigação começa quando uma misteriosa presença surge em meio à sociedade predominantemente formada por mamíferos. A chegada de Gary De’Snake (Ke Huy Quan), uma víbora-azul atrapalhada e extremamente ágil, coloca Judy diante de um caso que envolve uma parte de Zootopia que praticamente não conhecíamos.
Gary é uma das melhores adições da sequência. O personagem consegue ser engraçado sem depender apenas de sua aparência e funciona como uma porta de entrada para um universo de répteis que altera a dinâmica da cidade. Tartarugas, lagartos e cobras deixam de ser apenas figuras periféricas e passam a participar diretamente da história.
A escolha também permite que “Zootopia 2” atualize sua própria metáfora. Se o primeiro filme trabalhava com diferenças entre espécies que conviviam em uma sociedade aparentemente equilibrada, a sequência pergunta o que acontece quando um grupo que estava praticamente ausente desse sistema exige espaço dentro dele.
É uma extensão natural da proposta original, embora o filme seja menos interessado em desenvolver a ideia de maneira sofisticada do que em transformá-la em combustível para novas situações cômicas e aventuras.
Nick e Judy continuam sendo a melhor dupla

A relação entre os protagonistas permanece mais interessante do que a investigação que os coloca em movimento. Judy quer resolver o caso a qualquer custo, enquanto Nick tenta enxergar as situações com mais leveza. O contraste funciona porque os dois já possuem uma história compartilhada, e as discussões agora parecem mais próximas das de uma dupla que precisa aprender a conviver do que das de dois policiais que acabaram de se conhecer.
O Chefe Bogo (Idris Elba) aproveita justamente essa dificuldade para obrigá-los a passar por uma espécie de terapia de parceiros. A situação é absurda, mas ajuda a estabelecer rapidamente o problema central da dupla: eles confiam um no outro, porém ainda não compreendem completamente como o outro funciona.
Jason Bateman mantém o sarcasmo que tornou Nick tão eficiente no primeiro filme, enquanto Ginnifer Goodwin preserva a ansiedade e o entusiasmo de Judy. A química entre os dois continua sendo uma das maiores forças da franquia.
Zootopia fica maior sem perder o humor

Byron Howard e Jared Bush retornam à direção e demonstram familiaridade absoluta com a cidade. “Zootopia 2” aproveita regiões já conhecidas e apresenta novos espaços, criando uma metrópole ainda mais movimentada e cheia de pequenas histórias acontecendo ao mesmo tempo.
A animação também evoluiu consideravelmente desde 2016. As cenas de multidão são muito mais detalhadas, os ambientes ganharam complexidade e as sequências de perseguição conseguem colocar dezenas de personagens em movimento sem perder a clareza.
Uma cidade cheia de detalhes

O filme também mantém a tradição de esconder piadas e referências em praticamente todos os cantos da imagem. Algumas funcionam melhor do que outras, mas a quantidade de detalhes transforma a cidade em parte ativa da diversão.
Ao mesmo tempo, a quantidade de personagens secundários pode deixar a narrativa um pouco sobrecarregada. Figuras conhecidas como Mr. Big e Flash retornam, enquanto novos personagens são apresentados em sequência. O universo continua interessante, mas nem todos recebem espaço suficiente para justificar sua presença.
Uma sequência que encontra novos caminhos
O mérito de “Zootopia 2” está em compreender que a franquia não depende apenas de uma nova investigação. O universo criado pela Disney permite histórias praticamente infinitas, e a introdução dos répteis oferece uma maneira simples de explorar uma parte da cidade que ainda não havia recebido atenção.
A mensagem sobre convivência também permanece. Desta vez, o filme desloca o foco para a exclusão daqueles que não se encaixam na estrutura dominante de Zootopia. A metáfora continua bastante direta, mas funciona porque está integrada à aventura em vez de interrompê-la constantemente.
Peixes e aves continuam praticamente fora desse mundo, deixando outras possibilidades para o futuro. É uma solução conveniente para uma franquia que claramente pretende continuar explorando sua própria cidade.
“Zootopia 2” não possui a mesma sensação de descoberta do primeiro filme, mas não precisa ter. Sua principal conquista está em encontrar novos caminhos dentro de um universo que já conhecemos. Nick e Judy continuam funcionando como dupla, enquanto Gary De’Snake acrescenta uma presença divertida e os novos territórios dão à cidade espaço para crescer.




