Crítica: O Diabo Veste Prada 2 revisita a Runway, mas não encontra uma nova identidade

O Diabo Veste Prada 2 reúne Anne Hathaway e Meryl Streep no retorno da revista Runway ao cinema.
Foto: 20th Century Studios

Vinte anos depois de transformar a rotina da revista Runway em um dos retratos mais populares da indústria da moda no cinema, “O Diabo Veste Prada 2” retorna com uma missão complexa: recuperar personagens marcantes enquanto apresenta um mercado completamente diferente daquele mostrado no filme original.

A sequência dirigida novamente por David Frankel acompanha o reencontro entre Andy Sachs (Anne Hathaway) e Miranda Priestly (Meryl Streep) em um momento de grandes mudanças para a Runway. A revista enfrenta dificuldades causadas pela transformação do mercado editorial, pela queda do modelo tradicional de publicação e pela pressão de um ambiente cada vez mais dominado pelo conteúdo digital.

Mais do que uma continuação baseada na nostalgia, o filme tenta discutir como moda, jornalismo e criatividade foram afetados pelas novas regras da indústria. O resultado encontra boas ideias sobre o presente, mas nem sempre consegue desenvolver essas questões com a mesma força narrativa do primeiro longa.

O retorno da Runway acontece em uma indústria transformada

Anne Hathaway retorna como Andy Sachs em O Diabo Veste Prada 2 durante reunião na revista Runway.
Foto: 20th Century Studios

O grande desafio de “O Diabo Veste Prada 2” está no próprio tempo que separa os dois filmes. O longa original chegou aos cinemas em 2006, quando revistas de moda ainda tinham enorme influência cultural e a relação entre marcas, imprensa e celebridades funcionava de maneira muito diferente.

Na nova história, a Runway precisa sobreviver em um cenário onde publicações tradicionais perderam espaço para plataformas digitais, redes sociais e novos formatos de consumo. A crise da revista se torna o ponto de partida para reunir novamente Andy e Miranda.

Andy retorna ao universo da publicação como uma jornalista experiente, chamada para ajudar a recuperar a relevância editorial da Runway. O reencontro com Miranda acontece em uma realidade diferente, na qual as duas personagens precisam lidar não apenas com o passado, mas com um mercado que mudou completamente.

Miranda Priestly continua sendo a maior força da sequência

Meryl Streep interpreta Miranda Priestly no retorno de O Diabo Veste Prada 2 em nova fase da Runway.
20th Century Studios

O retorno de Meryl Streep como Miranda Priestly é um dos principais motivos pelos quais a franquia continua despertando interesse. A atriz preserva os elementos que tornaram a personagem inesquecível, mas acrescenta novas camadas ao mostrar uma editora enfrentando um mundo que já não funciona sob as mesmas regras.

A continuação entende que Miranda não poderia simplesmente repetir o comportamento do primeiro filme. A personagem permanece controladora e sofisticada, mas o roteiro explora momentos em que sua posição de poder começa a ser questionada pelas mudanças ao redor.

Esses momentos estão entre os mais eficientes da produção, principalmente porque mostram a relação entre Miranda e Andy como algo mais complexo do que uma simples disputa entre chefe e funcionária.

Anne Hathaway retorna como uma Andy Sachs mais madura

Emily Blunt retorna como Emily Charlton em O Diabo Veste Prada 2 no universo da moda.
20th Century Studios

Andy Sachs também enfrenta o peso da passagem do tempo. A personagem retorna com uma trajetória profissional mais consolidada, mas ainda carregando marcas da experiência que viveu na Runway anos antes.

Anne Hathaway mantém o carisma que tornou Andy uma das figuras mais populares da carreira da atriz. A dinâmica entre ela e Miranda continua sendo o coração emocional do filme, especialmente quando a narrativa explora como ambas foram transformadas pelas escolhas que fizeram.

Apesar disso, parte do desenvolvimento da personagem poderia aproveitar melhor essa evolução. Em alguns momentos, a sequência parece menos interessada em mostrar quem Andy se tornou e mais preocupada em recuperar elementos reconhecíveis do primeiro filme.

Emily Blunt e Stanley Tucci reforçam o legado do elenco original

Stanley Tucci volta como Nigel em O Diabo Veste Prada 2 ao lado da equipe da revista Runway.
20th Century Studios

O retorno de Emily Charlton e Nigel também funciona como uma conexão importante com o filme de 2006. Emily Blunt mantém o humor e a energia da personagem, enquanto Stanley Tucci novamente demonstra por que Nigel continua sendo uma das figuras mais queridas da franquia.

Tucci entrega uma atuação marcada pelo equilíbrio entre elegância, humor e sensibilidade. O personagem funciona como uma lembrança do lado humano existente por trás da imagem de perfeição criada pela indústria da moda.

Já Emily acaba sendo uma das personagens mais prejudicadas pelo roteiro, que nem sempre encontra o melhor caminho para explorar sua nova posição dentro desse universo.

O filme discute o futuro da moda, mas não aprofunda suas ideias

Entre os temas mais interessantes de “O Diabo Veste Prada 2” está a tentativa de refletir sobre o futuro da indústria criativa. A produção aborda questões como inteligência artificial, mudanças no jornalismo, influência das grandes empresas e a transformação da moda em conteúdo rápido para consumo digital.

O problema é que essas discussões aparecem de maneira irregular. O filme apresenta diversos assuntos relevantes, mas muitas vezes apenas sugere suas possibilidades sem desenvolver completamente suas consequências.

A produção funciona melhor quando observa a perda de identidade causada pela busca constante por eficiência e números. A ideia de que setores criativos podem perder parte de sua essência ao serem tratados apenas como produtos é um dos pontos mais fortes da narrativa.

A estética da sequência revela uma contradição com sua própria mensagem

Visualmente, “O Diabo Veste Prada 2” apresenta momentos de grande cuidado, especialmente nas locações e no retorno ao universo sofisticado da moda. Nova York, Milão e outros ambientes ligados ao luxo ajudam a recuperar parte da atmosfera que marcou o primeiro filme.

Por outro lado, a produção também apresenta uma estética mais próxima de conteúdos contemporâneos de streaming, com montagem acelerada e excesso de elementos tentando manter a atenção do público constantemente.

Essa escolha cria uma contradição interessante, já que o próprio filme questiona uma cultura baseada em velocidade e consumo imediato. A sequência acaba refletindo parte da transformação que tenta analisar.

O Diabo Veste Prada 2 encontra relevância, mas não supera o impacto original

Fazer uma continuação duas décadas depois de um sucesso tão marcante é um dos maiores desafios de Hollywood. “O Diabo Veste Prada 2” tem a vantagem de contar com personagens fortes e um elenco capaz de recuperar a conexão emocional com o público.

O filme também encontra um caminho interessante ao observar as mudanças na moda, no jornalismo e na indústria do entretenimento. A discussão sobre um mundo cada vez mais orientado por números e plataformas digitais mantém a produção atual.

Mas, ao mesmo tempo, a sequência não alcança a mesma precisão do primeiro filme ao equilibrar humor, crítica e identidade visual. O retorno à Runway é agradável e possui momentos importantes, mas depende muito da força de personagens que já eram memoráveis antes mesmo desta nova história existir.

“O Diabo Veste Prada 2” não é apenas uma tentativa de reviver o passado. É também um retrato de uma indústria tentando entender o próprio futuro. O resultado é uma continuação que tem boas perguntas sobre o presente, mesmo quando não encontra todas as respostas.

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