Crítica: “Bass Persuades”: Miley Cyrus encontra boas ideias, mas não um álbum à altura delas

Miley Cyrus apresenta “Bass Persuades”, álbum que mistura pop romântico, baladas e momentos eletrônicos.
Foto: Atlantic

“Bass Persuades” começa como se Miley Cyrus estivesse prestes a entregar um álbum completamente voltado para a pista. A faixa-título, escolhida como primeiro single, combina batidas eletrônicas, comandos falados e uma produção que aponta para o pop de clubes. É uma abertura que cria uma expectativa bastante específica. O problema é que o restante do disco não parece interessado em cumpri-la.

Depois de “Different Religion”, a música que acompanha a abertura nessa direção mais dançante, Miley muda de caminho. O álbum passa a alternar canções românticas, baladas e momentos mais excêntricos, sem construir uma identidade sonora tão evidente quanto a introdução fazia imaginar.

Essa mudança não seria necessariamente um problema. Miley Cyrus tem uma carreira marcada justamente pela disposição de experimentar diferentes versões de si mesma. Em “Bass Persuades”, porém, as mudanças parecem menos calculadas. As músicas individualmente encontram alguns bons momentos, mas o conjunto raramente transmite a sensação de que existe uma ideia maior conduzindo tudo.

Quando Miley deixa o romance respirar

O amor é o assunto dominante do álbum. Maxx Morando, noivo de Miley, participa da composição e produção da maior parte das faixas, enquanto as letras registram uma fase evidentemente mais tranquila e apaixonada da cantora.

O resultado é irregular. “Let’s Get Married” é o exemplo mais evidente de quando essa felicidade perde força musicalmente. A música aposta tanto na celebração do relacionamento que acaba ficando previsível, sem um refrão ou uma produção capazes de transformar o sentimento em um grande momento pop.

“Orbit” encontra uma solução melhor. A faixa também fala sobre estar completamente envolvida por outra pessoa, mas faz isso por meio de uma metáfora espacial que ganha personalidade ao longo da composição. É uma das poucas vezes em que “Bass Persuades” consegue transformar uma ideia romântica bastante conhecida em algo que parece genuinamente seu.

Essa diferença é importante para entender o álbum. Miley funciona melhor quando suas letras têm uma imagem específica, uma contradição ou algum detalhe capaz de dar personalidade ao sentimento. Quando as músicas apenas celebram a felicidade, o disco perde parte da força que sua intérprete poderia oferecer.

Os desvios são mais interessantes que a proposta principal

“Neon Signs” também se beneficia de uma escolha menos convencional. A música não é necessariamente uma das mais fortes do álbum, mas o diálogo entre Miley e Andrew Wyatt cria uma situação estranha e divertida. A faixa ganha personalidade justamente porque não tenta ser uma declaração romântica perfeita.

Esse tipo de momento faz falta. Em um disco tão concentrado em paixão e estabilidade, pequenas doses de estranheza ajudam a quebrar a previsibilidade. Miley não precisa abandonar o pop romântico para ser interessante; precisa apenas permitir que alguma personalidade atravesse a fórmula.

“Aftermath” faz isso de outra maneira. A música abandona a atmosfera ensolarada do restante do trabalho para pensar em perda, encerramento e nas consequências que ficam depois de uma relação. É uma mudança de temperatura bem-vinda e, também, uma das performances mais envolventes de Miley no álbum.

O contraste mostra um caminho que “Bass Persuades” poderia ter explorado mais. A felicidade não precisa ser apresentada como algo uniforme. Quando existe alguma dúvida, melancolia ou conflito, as músicas ganham profundidade.

“Innocent Ways” coloca o álbum em outro lugar

O maior desvio aparece em “Innocent Ways”. A música aborda uma relação familiar marcada por preocupação e crise, introduzindo um nível de tensão que praticamente não existe nas outras faixas.

A composição chama atenção justamente por ser mais específica. Em vez de permanecer nas declarações universais sobre estar apaixonada, Miley entra em uma situação pessoal e desconfortável. As referências à irmã e à própria dinâmica familiar deixam a música mais aberta a interpretações, mas também mais humana.

É curioso que justamente essa faixa seja uma das que mais se aproximam da energia que o primeiro single prometia. A batida tem mais urgência, mas o que realmente sustenta a música é a tensão da letra. Existe algo acontecendo ali, e isso faz toda a diferença em um álbum que passa boa parte do tempo descrevendo um estado de felicidade.

“Innocent Ways” acaba funcionando como uma espécie de lembrete de que Miley ainda é mais interessante quando existe alguma coisa em jogo. A cantora não precisa necessariamente estar sofrendo para produzir uma boa música, mas o conflito dá às suas interpretações uma força que as declarações românticas mais simples não conseguem alcançar.

O problema não é a duração

Com cerca de 38 minutos, “Bass Persuades” é um álbum curto. Isso, por si só, não seria um problema. O ponto é que algumas faixas parecem pouco desenvolvidas, enquanto outras não justificam completamente o espaço que ocupam.

“Snow” funciona como um encerramento delicado para a parte inédita do disco. Depois dela, entretanto, Miley acrescenta um remix acelerado de “Bass Persuades”. A decisão enfraquece a conclusão porque transforma a última impressão do álbum em uma repetição de sua própria abertura.

O remix até pode funcionar melhor para quem gosta da faixa original, mas artisticamente ele pouco acrescenta. Depois de um disco que já sofre com uma identidade irregular, terminar com uma versão alternativa da música que apresentou sua principal promessa reforça a sensação de que faltava uma conclusão mais significativa.

Um passo menor na discografia de Miley

“Bass Persuades” não é um álbum ruim. Há melodias eficientes, boas interpretações e algumas composições que mostram Miley Cyrus em uma fase mais pessoal. O problema é que esses acertos aparecem espalhados por um disco que nunca encontra uma direção suficientemente forte para uni-los.

Depois da proposta visual e sonora mais definida de “Something Beautiful”, este novo trabalho parece menos preocupado em construir uma estética própria. Ele registra um momento específico da vida da cantora, principalmente sua felicidade amorosa, mas raramente transforma essa experiência em algo maior do que o próprio relato.

Isso faz de “Bass Persuades” um disco curioso dentro da carreira de Miley. Não há uma queda brusca de qualidade, nem uma reinvenção que obrigue o ouvinte a reconsiderar sua trajetória. Existe, em vez disso, um trabalho agradável e ocasionalmente muito bom que parece chegar antes de ter encontrado exatamente o que queria dizer.

As melhores faixas deixam claro que havia material para algo mais consistente. “Orbit” mostra que o romance pode ser inteligente; “Aftermath” prova que a vulnerabilidade dá peso às interpretações; e “Innocent Ways” demonstra como o conflito pode tirar Miley de sua zona de conforto. O problema é que essas ideias aparecem como exceções, quando poderiam ter formado a espinha dorsal do álbum.

No fim, “Bass Persuades” deixa uma impressão curiosamente modesta para uma artista que raramente faz movimentos pequenos. É um retrato de uma Miley feliz, apaixonada e confortável, mas também de uma cantora que parece estar entre duas fases. O próximo passo talvez seja mais interessante justamente porque este álbum não parece ter chegado a uma conclusão definitiva sobre qual será essa nova direção.

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