Paramount-Warner promete 30 filmes por ano, mas a grande aposta de David Ellison ainda depende do público

David Ellison, CEO da Paramount Skydance, defende uma estratégia de 30 filmes por ano nos cinemas.
Foto: Divulgação

David Ellison quer fazer da quantidade de filmes uma das principais bandeiras de sua proposta para a futura Paramount-Warner Bros. A promessa é colocar pelo menos 30 produções por ano nos cinemas, acompanhadas de janelas de exibição mais tradicionais. O problema é que aumentar o número de lançamentos não significa necessariamente aumentar o interesse do público.

Paramount quer transformar 30 filmes por ano em compromisso

Desde que começou a defender a fusão entre Paramount e Warner Bros. Discovery, Ellison vem repetindo o compromisso de lançar mais de 30 filmes por ano nos cinemas. A ideia ganhou ainda mais peso agora que o executivo oferece garantias contratuais às duas maiores redes de cinema dos Estados Unidos, AMC Entertainment e Regal Cinemas.

Segundo a Variety, os acordos teriam duração de três anos e garantiriam aos cinemas uma janela exclusiva de 45 dias para os filmes, além de uma espera de pelo menos 90 dias antes que eles chegassem aos serviços de streaming. O descumprimento dessas condições poderia resultar em penalidades financeiras para a Paramount.

A proposta também funciona como uma resposta às preocupações apresentadas no processo antitruste movido por 12 procuradores-gerais estaduais contra a operação. Uma das alegações é que a união entre Paramount e Warner Bros. daria à companhia resultante controle excessivo sobre o mercado de lançamentos cinematográficos.

Ao formalizar a promessa de 30 filmes, a empresa procura demonstrar que não pretende reduzir a quantidade de produções destinadas às salas para favorecer seus próprios serviços de streaming, Paramount+ e HBO Max. O julgamento do processo está previsto para março de 2027, e Ellison enfrenta pressão para tentar chegar a um acordo com os estados antes disso.

O problema não é quantos filmes chegam aos cinemas

A garantia, porém, resolve apenas uma parte da discussão. O ponto mais difícil está justamente no que acontece depois que esses filmes chegam às salas.

Trinta lançamentos anuais podem representar uma oferta maior para os exibidores, mas não existe garantia de que o público tenha interesse suficiente para sustentar essa programação. Um estúdio pode lançar mais filmes e, ainda assim, registrar resultados financeiros menores caso a média de arrecadação por produção caia.

O próprio histórico recente da Paramount oferece um exemplo. A empresa aumentou sua programação anual de oito filmes em 2015 para 15 em 2025, mas informou aos investidores que esperava uma receita de bilheteria significativamente menor, em razão da redução da arrecadação média por filme.

Parte da comparação foi afetada pelo desempenho de “Missão: Impossível – O Acerto de Contas”, mas o caso demonstra justamente o problema que a promessa de Ellison não consegue resolver: quantidade de lançamentos e força comercial são métricas diferentes.

No segundo trimestre de 2026, a receita de bilheteria da Paramount Pictures caiu 45%, chegando a US$ 138 milhões. O resultado também sofreu com a comparação desfavorável com o período anterior, mas reforça a dificuldade de transformar uma programação mais extensa em crescimento consistente.

O público continua sendo a variável impossível de controlar

Ellison reconhece que não pode garantir o sucesso financeiro de cada produção. Em um artigo de opinião publicado pelo New York Times, o executivo citou “G.I. Joe: Retaliação”, “Top Gun: Maverick” e “Exterminador do Futuro: Destino Sombrio” como exemplos de filmes que tiveram desempenhos diferentes e argumentou que ninguém consegue determinar antecipadamente aquilo que o público vai amar.

A promessa, segundo ele, é outra: trabalhar mais e oferecer mais oportunidades para que um filme encontre seu público.

Essa lógica faz algum sentido do ponto de vista de um estúdio. Quanto maior a quantidade de apostas, maior também o número de possibilidades de encontrar um sucesso. O problema é que o cinema não funciona apenas como uma loteria em que aumentar o número de bilhetes garante um prêmio maior.

Filmes precisam de marketing, estrelas capazes de atrair espectadores, franquias reconhecidas, boas críticas, recomendações do público e, principalmente, uma razão para que alguém decida sair de casa e pagar por uma sessão. Trinta títulos não necessariamente produzem trinta motivos para fazer isso.

A programação recente da Paramount ajuda a ilustrar essa dificuldade. “Todo Mundo em Pânico”, lançado em junho, tornou-se o principal lançamento do estúdio no segundo trimestre, alcançando US$ 108 milhões nos Estados Unidos e US$ 231 milhões mundialmente. É um resultado relevante, mas ainda distante do tipo de fenômeno capaz de sustentar sozinho uma estratégia de expansão agressiva.

Mais filmes não significam necessariamente mais público

A diferença fica ainda mais evidente quando a Paramount é comparada aos grandes sucessos que dominam o calendário de 2026. Produções como “Toy Story 5”, “A Odisseia” e “Homem-Aranha: Um Novo Dia” chegam aos cinemas carregando marcas, personagens ou cineastas capazes de gerar um interesse que vai muito além da quantidade de sessões disponíveis.

“Duna 3”, da própria Warner Bros., também surge como um possível grande evento para dezembro de 2026. Mas, enquanto a fusão não for concluída, o filme não faz parte da futura programação da Paramount-Warner Bros. que Ellison está tentando apresentar aos exibidores.

Outro exemplo é “Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft”, filme-concerto dirigido por Billie Eilish e James Cameron. A produção recebeu avaliações positivas e conseguiu mobilizar os fãs da cantora, mas arrecadou US$ 9,9 milhões nos Estados Unidos durante suas duas semanas em cartaz em maio.

O desempenho mostra que existe espaço para formatos diferentes nos cinemas, mas também evidencia a dimensão do desafio. Uma programação composta por dezenas de títulos menores pode preencher o calendário das salas, mas dificilmente resolverá sozinha o problema de atrair grandes volumes de espectadores.

A promessa de Ellison depende de algo que nenhum contrato controla

A proposta de David Ellison tem uma vantagem evidente para os exibidores: ela oferece previsibilidade. Garantir 30 filmes por ano e estabelecer períodos mínimos de exclusividade reduz o receio de que a futura Paramount-Warner Bros. use o streaming para diminuir a importância das salas.

Mas existe uma diferença importante entre garantir que um filme será lançado e garantir que alguém irá assisti-lo.

É justamente nessa distância que está a principal fragilidade da estratégia. Ellison pode controlar o número de produções, os contratos com os cinemas e até a duração das janelas de exibição. O que ele não pode controlar é a decisão do público de comprar um ingresso.

Para a indústria cinematográfica, portanto, a promessa de 30 filmes pode ser um compromisso importante. Para o público, porém, ela só terá significado se esses 30 lançamentos conseguirem oferecer algo que valha a ida ao cinema.

No fim, a questão não é se a futura Paramount-Warner Bros. conseguirá colocar 30 filmes por ano nas salas. É se conseguirá fazer com que o público queira assistir a eles.

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