Crítica de ‘A Noiva!’: Jessie Buckley e Christian Bale brilham em um Frankenstein punk que perde força pelo caminho

Jessie Buckley e Christian Bale em A Noiva!
Foto: Warner Bros.

“A Noiva!” começa de um ponto simples, mas Maggie Gyllenhaal não parece interessada em permanecer nele por muito tempo. Em vez de tratar “Frankenstein” como uma peça de patrimônio cinematográfico que precisa ser preservada, a diretora desmonta o mito de Mary Shelley e o reconstrói como uma história de amor estranha, punk e deliberadamente exagerada. O resultado é um filme que encontra sua força justamente quando abandona qualquer obrigação de parecer respeitável.

Essa escolha também explica por que Christian Bale e Jessie Buckley parecem tão à vontade dentro desse universo. Como Frank e Ida, os dois não interpretam apenas criaturas trazidas de volta à vida. Eles interpretam pessoas tentando descobrir o que fazer com uma existência que nunca pareceu pertencer a elas. Há humor, desejo, violência e uma melancolia inesperada nessa relação. O problema é que a imaginação de Gyllenhaal nem sempre encontra uma narrativa capaz de acompanhar a energia dos personagens.

A história se passa em uma Chicago de 1936 construída como uma espécie de conto de fadas decadente. Néons, gangues, clubes, cientistas excêntricos e figuras grotescas convivem em uma cidade que parece pertencer ao mesmo tempo ao passado e a uma fantasia construída a partir dele. É um cenário cheio de personalidade, e Gyllenhaal claramente se diverte explorando suas possibilidades.

É nesse mundo que Frank surge. Depois de anos vagando pelo planeta, ele carrega no próprio corpo as marcas de uma vida feita de rejeição. Seu rosto parece uma colagem de cicatrizes, carne e remendos, enquanto seu corpo transmite a sensação de ter sido reconstruído sem qualquer preocupação com beleza ou proporção. Christian Bale poderia facilmente transformar essa aparência em uma caricatura, mas encontra no personagem uma vulnerabilidade que impede Frank de ser apenas mais uma criatura grotesca.

Frank não quer conquistar o mundo. Ele quer alguém que permaneça ao seu lado. É esse desejo que o leva até a Dra. Euphronious (Annette Bening), uma cientista excêntrica que acredita poder oferecer ao monstro aquilo que ele nunca encontrou sozinho: companhia.

Ida não nasceu para completar ninguém

Jessie Buckley interpreta Ida em A Noiva!
Foto: Warner Bros.

Ida, interpretada por Jessie Buckley, é onde “A Noiva!” encontra sua ideia mais interessante. Antes de morrer, ela era uma mulher cercada por homens que tentavam determinar o que poderia fazer, desejar e ser. Quando volta à vida, essa antiga condição desaparece. Ida não retorna como uma versão feminina de Frank. Ela retorna como alguém que precisa descobrir a própria identidade antes mesmo de decidir se deseja pertencer a alguém.

Buckley entende perfeitamente essa contradição. Ida pode parecer delicada em um instante e completamente imprevisível no seguinte. Seu cabelo loiro, o vestido de seda e a maquiagem marcada pela boca negra fazem dela uma figura quase saída de uma ilustração de conto de fadas, mas a atuação nunca permite que o visual seja apenas decoração. Existe uma personalidade tentando escapar daquela imagem o tempo inteiro.

É também por isso que o romance entre Ida e Frank funciona melhor quando o filme deixa de tentar explicar o que eles representam. Os dois se reconhecem porque conhecem a mesma experiência de serem observados como aberrações. A relação não nasce apenas do desejo. Ela nasce da possibilidade de finalmente encontrar alguém que compreenda uma solidão que parecia permanente.

Gyllenhaal acerta ao não transformar Ida em uma simples recompensa para Frank. A noiva não existe para completar o monstro. Ela precisa descobrir quem é, o que deseja e até onde está disposta a desafiar o mundo que tenta defini-la.

Da história de amor à revolta

Christian Bale interpreta Frank em A Noiva!
Foto: Warner Bros.

A transformação de Ida ganha outra dimensão quando sua recusa em obedecer deixa de ser apenas uma característica pessoal. Sua frase recorrente, “eu preferiria não fazer”, funciona como uma espécie de princípio. Ela não quer aceitar as regras de um mundo que passou a vida inteira decidindo o que uma mulher deveria ser.

É nesse momento que “A Noiva!” tenta ampliar seu romance para uma história de revolta. A experiência de Ida começa a inspirar outras mulheres, e aquilo que inicialmente parecia apenas uma descoberta individual passa a adquirir uma dimensão coletiva. A proposta combina com a releitura feminista de Gyllenhaal, mas é justamente aqui que o filme começa a perder parte da força que havia encontrado.

A revolução existe mais como ideia do que como experiência dramática. O filme nos mostra suas consequências, mas raramente faz com que elas sejam sentidas. A relação entre Ida e Frank possui intimidade, contradição e emoção. Já o movimento que nasce a partir de Ida parece muitas vezes uma extensão conceitual do que a diretora gostaria de dizer.

Essa diferença é importante porque revela onde “A Noiva!” realmente funciona. Quando Gyllenhaal permanece próxima de seus personagens, o filme encontra uma identidade própria. Quando tenta transformar essa intimidade em uma declaração maior sobre a sociedade, a narrativa se torna mais explicativa e menos envolvente.

Dois monstros que encontram humanidade

Ida e Frank aparecem juntos em A Noiva!
Foto: Warner Bros.

Christian Bale e Jessie Buckley são responsáveis por manter essa experiência de pé mesmo quando o roteiro começa a se dispersar. Os dois encontram uma dinâmica que mistura estranheza, humor e uma ingenuidade quase infantil. Frank e Ida podem ser criaturas monstruosas, mas a relação entre eles é construída a partir de sentimentos bastante reconhecíveis.

Bale interpreta Frank como alguém que passou tempo demais tentando compreender um mundo que nunca o aceitou. Seus movimentos desajeitados e sua voz arrastada poderiam facilmente transformar o personagem em uma paródia. O ator, porém, encontra uma tristeza permanente naquele corpo enorme. Frank parece alguém que finalmente encontrou uma pessoa ao lado de quem não precisa pedir desculpas por existir.

Buckley trabalha em outra frequência. Ida está descobrindo o próprio corpo e a própria personalidade ao mesmo tempo, e a atriz transforma essa descoberta em uma combinação de inocência, fúria e humor. Sua personagem pode parecer perdida, mas nunca parece passiva. Mesmo quando não sabe quem é, Ida sabe que não quer voltar a ser aquilo que os outros esperam dela.

A fotografia e o design de produção completam essa construção. A Chicago de Gyllenhaal não pretende ser uma reconstrução histórica convencional. Ela é uma cidade estilizada, suja e luminosa, cheia de espaços decadentes e excessos visuais. O filme parece mais interessado em criar uma memória possível dos anos 1930 do que em reproduzir aquele período com precisão documental.

Quando a invenção perde o ritmo

Jessie Buckley e Christian Bale estrelam a releitura de Frankenstein dirigida por Maggie Gyllenhaal.
Foto: Warner Bros.

O maior problema de “A Noiva!” não está na falta de personalidade. Está no excesso dela. Gyllenhaal tem ideias visuais, referências cinematográficas e possibilidades narrativas suficientes para vários filmes, mas nem sempre consegue organizar tudo em uma progressão dramática consistente. A história perde velocidade justamente quando deveria ganhar impulso.

Quando Frank e Ida se tornam fugitivos, a produção encontra uma energia diferente. O filme passa a funcionar como uma aventura de dois outsiders contra um mundo que insiste em rejeitá-los. A violência ganha um caráter quase absurdo, o romance fica mais livre e a história finalmente parece avançar sem precisar explicar o que pretende significar.

É também nessa fase que Gyllenhaal consegue algumas de suas imagens mais memoráveis. A sequência na boate, construída em torno de “Puttin’ on the Ritz”, transforma o filme em um espetáculo musical inesperado e funciona como uma brincadeira com a própria tradição de “Frankenstein”, especialmente com “O Jovem Frankenstein”. É uma cena exuberante, engraçada e consciente de sua herança sem parecer presa a ela.

O problema é que momentos assim aparecem de maneira irregular. Depois de uma sequência cheia de energia, “A Noiva!” pode voltar a um ritmo contemplativo e disperso. A sensação não é de que Gyllenhaal não sabe o que quer fazer. Pelo contrário: ela parece saber exatamente o que quer explorar, mas nem sempre encontra a maneira mais eficiente de conduzir o espectador até lá.

Essa irregularidade impede que o filme alcance todo o potencial de sua proposta. “A Noiva!” tem uma dupla central forte, uma identidade visual marcante e uma releitura de “Frankenstein” que encontra algo genuinamente contemporâneo no mito. O que falta é uma estrutura capaz de transformar todas essas boas ideias em uma experiência mais coesa.

Ainda assim, seria injusto reduzir o filme aos seus problemas. Maggie Gyllenhaal não trata “Frankenstein” como uma relíquia. Ela encontra no mito uma história sobre pessoas que foram transformadas em monstros pelos olhos dos outros e decide colocar o desejo, a identidade e a liberdade no centro dessa releitura.

“A Noiva!” pode ser desajeitado, irregular e até excessivo, mas também é muito mais vivo do que uma releitura que tratasse Mary Shelley com reverência. Jessie Buckley e Christian Bale encontram humanidade em dois personagens que deveriam representar o contrário, enquanto Gyllenhaal cria um universo que parece permanentemente prestes a desmoronar. Talvez seja justamente essa imperfeição que torne o filme interessante: ele não consegue dominar completamente o monstro que criou, mas também nunca deixa de tentar.

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