Crítica: ‘Predador: Terras Selvagens’: A franquia encontra um novo caminho ao colocar o caçador no centro da caça

Dek, um Yautja interpretado por Dimitrius Schuster-Koloamatangi, em cena de “Predador: Terras Selvagens”.
Foto: 20th Century Studios

Há algo de curioso em “Predador: Terras Selvagens”: pela primeira vez em muito tempo, a criatura que deveria provocar medo ocupa o lugar de quem precisa conquistar o público. Dan Trachtenberg já havia entendido, em “Predador: A Caçada”, que a franquia não precisava repetir indefinidamente a mesma perseguição. Agora, ele dá um passo mais arriscado e transforma um Yautja em protagonista.

Essa escolha poderia facilmente destruir aquilo que tornou o Predador tão ameaçador. Em vez disso, o filme encontra justamente nessa inversão seu principal interesse. Dek (Dimitrius Schuster-Koloamatangi) não começa como um guerreiro admirável. Ele é o membro considerado fraco de seu clã, alguém que precisa provar seu valor diante de uma sociedade que mede força pela capacidade de dominar e matar. Sua jornada, portanto, não consiste apenas em sobreviver a um planeta hostil. Ele precisa descobrir que as regras que aprendeu a seguir talvez sejam o maior obstáculo para sua sobrevivência.

O Predador deixa de ser a ameaça

O Predador Dek enfrenta um ambiente hostil em “Predador: Terras Selvagens”, dirigido por Dan Trachtenberg.
Foto: 20th Century Studios

Durante décadas, a franquia construiu sua identidade a partir de uma ideia simples: colocar humanos em um ambiente onde existe algo mais forte, mais rápido e mais preparado para caçá-los. “Predador: Terras Selvagens” muda a posição da câmera. Agora acompanhamos o caçador, conhecemos seu código e observamos suas limitações.

Genna, o planeta onde Dek desembarca para enfrentar o Kalisk, funciona como uma extensão dessa mudança. A fauna e a flora apresentam ameaças suficientes para transformar cada deslocamento em uma possibilidade de morte, mas Trachtenberg evita transformar o cenário em um catálogo de monstros. O interesse está na maneira como Dek reage quando suas armas deixam de resolver tudo.

O personagem possui tecnologia suficiente para tornar uma caçada convencional quase trivial. Quando precisa abandoná-la, porém, começa o verdadeiro filme. Dek improvisa, observa e aprende. O Predador, que sempre pareceu conhecer todas as regras daquele jogo, passa a ocupar a posição de quem ainda não sabe jogar.

Essa vulnerabilidade também explica por que o protagonista funciona melhor do que poderia parecer no papel. Dek continua sendo uma máquina de combate, mas o filme não confunde capacidade física com maturidade. Ele conhece a violência. O que ainda não conhece é a cooperação.

Elle Fanning encontra o contraponto certo

Dek aparece em “Predador: Terras Selvagens”, filme que coloca um Yautja no centro da história.
Foto: 20th Century Studios

É nesse ponto que Thia, interpretada por Elle Fanning, ganha importância. A sintética poderia existir apenas para explicar o universo ao espectador, já que Dek fala a língua dos Yautja e não precisa traduzir suas próprias ações. Trachtenberg usa a personagem para algo mais interessante: colocar diante dele alguém que não aceita naturalmente as regras que definem sua existência.

Thia não entende a honra Yautja como Dek entende. Para ele, receber ajuda compromete a legitimidade da caça. Para ela, sobreviver exige adaptação. A dupla funciona porque suas diferenças não desaparecem quando começam a trabalhar juntas. O filme permite que esse conflito permaneça vivo enquanto os dois precisam lidar com ameaças maiores.

Fanning ainda assume uma segunda função dentro da história, e a diferença entre as duas personagens dá à atriz espaço para alternar humor e ameaça. A presença das sintéticas também aproxima “Terras Selvagens” da tradição de “Alien”, mas o filme não depende apenas dessa referência para criar identidade própria.

O melhor uso dessa conexão acontece quando “Predador” deixa de tratar a tecnologia como simples vantagem e passa a questionar quem controla seus recursos e com que finalidade. A presença da Weyland-Yutani amplia o universo sem precisar transformar cada referência em fan service.

Uma franquia que começa a olhar para dentro

Dimitrius Schuster-Koloamatangi interpreta Dek em “Predador: Terras Selvagens”, da 20th Century Studios.
Foto: 20th Century Studios

A grande novidade de “Terras Selvagens” não está apenas em colocar um Predador no centro da história. Está em permitir que a própria cultura Yautja seja questionada.

Dek foi educado para acreditar que força e valor são praticamente a mesma coisa. Seu pai o considera inadequado justamente porque ele não corresponde ao modelo esperado de guerreiro. O filme poderia resolver esse conflito transformando Dek em uma versão ainda mais poderosa de seus semelhantes. Escolhe um caminho mais interessante: ele começa a perceber que aquilo que o torna diferente também pode ser aquilo que permite sua sobrevivência.

O roteiro trabalha uma ideia conhecida, mas encontra um contexto adequado para ela. A crítica à obsessão pela força e pela hierarquia não precisa ser verbalizada o tempo inteiro porque está incorporada à trajetória do personagem. Cada vez que Dek depende de alguém, o filme enfraquece um pouco a lógica que o ensinou a desprezar a fraqueza.

É justamente aí que o humor negro ganha função. A violência continua exagerada, com corpos mutilados, criaturas estranhas e mortes elaboradas, mas Trachtenberg não trata tudo com solenidade. Thia e Bud ajudam a quebrar a brutalidade sem transformar o filme em uma paródia da própria franquia.

Esse equilíbrio é importante porque o Predador sempre teve uma relação curiosa com o espetáculo. A criatura assusta, mas também fascina. “Terras Selvagens” percebe que já não precisa esconder essa fascinação atrás do medo. Pode simplesmente colocar o Predador no centro e deixar que o público descubra que existe mais naquele personagem do que suas armas.

O que permanece quando a caça muda

Dek enfrenta ameaças em um planeta alienígena em “Predador: Terras Selvagens”.
Foto: 20th Century Studios

O filme ainda entrega aquilo que se espera de uma produção da franquia: criaturas violentas, confrontos elaborados, tecnologia alienígena e um protagonista colocado constantemente diante de situações extremas. A diferença está no significado dessas cenas. A ação não serve apenas para determinar quem é o caçador e quem é a presa. Ela acompanha a transformação de Dek.

Por isso, “Predador: Terras Selvagens” funciona melhor quando desacelera o suficiente para observar seus personagens. As grandes sequências de sobrevivência são competentes, mas o que sustenta a experiência é a relação improvável entre um Yautja que acredita precisar fazer tudo sozinho e uma sintética que enxerga a colaboração como uma questão prática.

Trachtenberg entende algo que a franquia demorou bastante para aceitar: o Predador não precisa continuar sendo apenas um monstro perseguindo personagens humanos. Ele já possui uma mitologia suficientemente rica para sustentar histórias sobre sua própria espécie.

“Predador: Terras Selvagens” não abandona a violência que definiu a série. Apenas muda o que ela significa. A caça continua existindo, mas agora o personagem que conhecia as regras precisa aprender a sobreviver fora delas. E, ao fazer isso, o filme encontra uma maneira surpreendentemente simples de renovar uma franquia que durante anos parecia presa à mesma ideia: talvez o Predador fique mais interessante justamente quando deixa de ser o maior perigo da história.

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