“Tron: Ares” chega com uma promessa bastante adequada ao momento atual: levar uma franquia criada para imaginar o futuro ao terreno da inteligência artificial. O problema é que, enquanto o filme encontra boas ideias para atualizar esse universo, ele continua olhando para trás em busca de aprovação. O resultado é uma ficção científica visualmente poderosa, mas presa entre a vontade de avançar e a necessidade de lembrar ao público de onde veio.
Uma franquia que tenta imaginar o amanhã olhando para ontem

Desde o primeiro “Tron”, a franquia encontrou sua identidade na fronteira entre o mundo físico e o digital. O filme de 1982 parecia enxergar uma realidade que ainda estava distante, enquanto “Tron: O Legado” retomou aquele imaginário décadas depois com uma preocupação maior com estética e espetáculo. “Tron: Ares” parte de uma questão mais próxima: e se programas desenvolvidos dentro de um ambiente virtual conseguissem atravessar para o nosso mundo?
A ideia tem potencial porque desloca o conflito da Rede para a realidade cotidiana. Ares, interpretado por Jared Leto, não é apenas uma inteligência artificial avançada. Ele representa o momento em que uma criação digital passa a existir fora do ambiente para o qual foi projetada. O filme poderia explorar as consequências dessa ruptura com bastante profundidade.
Em vez disso, o roteiro frequentemente trata a premissa como combustível para uma nova aventura de ação. Ares nasce como uma ferramenta militar descartável, criado por Julian Dillinger (Evan Peters), executivo de uma companhia tecnológica que enxerga nele um produto antes de enxergar uma forma de vida. A revolta do personagem surge rapidamente, assim como sua capacidade de compreender sentimentos, empatia e escolhas próprias.
Essa trajetória aproxima “Tron: Ares” de histórias conhecidas sobre máquinas que descobrem a própria humanidade. “Frankenstein”, “Pinóquio”, “O Gigante de Ferro” e até “O Exterminador do Futuro” aparecem como referências possíveis para entender o caminho percorrido pelo roteiro. A diferença é que o filme tem uma oportunidade particularmente atual nas mãos: discutir inteligência artificial sem tratá-la automaticamente como uma ameaça.
A melhor ideia está na inteligência artificial

É Eve Kim (Greta Lee), CEO da Encom, quem oferece ao filme sua perspectiva mais interessante. Enquanto Dillinger pretende controlar Ares e transformá-lo em uma arma, Eve enxerga possibilidades muito maiores para a tecnologia. Produzir alimentos, construir moradias e ampliar o acesso a recursos básicos são algumas das aplicações imaginadas por ela.
Essa oposição evita um caminho fácil. O problema não está necessariamente na existência da inteligência artificial, mas em quem decide seus objetivos e para que ela será utilizada. “Tron: Ares” encontra aí uma discussão que poderia sustentar um filme inteiro.
O roteiro, porém, prefere acelerar. Ares aprende rapidamente, desenvolve sentimentos e passa a questionar sua função antes que essas etapas tenham tempo suficiente para ganhar peso dramático. Jared Leto trabalha justamente com essa limitação: sua interpretação começa deliberadamente rígida, quase mecânica, mas o personagem deveria adquirir uma presença mais complexa conforme compreende o mundo ao redor.
Greta Lee acaba encontrando mais espaço para construir uma personagem. Eve funciona como contraponto moral de Julian e também como a pessoa que reconhece o potencial de Ares antes que ele próprio compreenda o que significa existir fora da Rede. A relação entre os dois poderia ser o coração da história, mas o filme frequentemente abandona essa possibilidade para voltar às exigências de uma franquia de ação.
O espetáculo ainda é o grande argumento de “Tron”

Quando “Tron: Ares” deixa suas ideias de lado e simplesmente acelera, ele se torna bastante eficiente. Joachim Rønning demonstra segurança na construção das sequências visuais, especialmente quando coloca os veículos e programas digitais em contato com o espaço urbano.
As Light Skimmers ganham uma presença imponente, enquanto os Recognizers e as tradicionais motos de luz continuam funcionando como elementos reconhecíveis desse universo. O design permanece um dos maiores trunfos da franquia, e o filme entende que parte do público veio justamente para ver essas imagens em uma escala maior.
O 3D também encontra uma justificativa mais clara do que em muitas produções recentes. Rønning utiliza profundidade e perspectiva para aproximar a Rede do espectador, criando uma sensação de espaço que complementa a arquitetura digital. A trilha de Trent Reznor e Atticus Ross, associada ao Nine Inch Nails, reforça essa atmosfera com uma camada sonora pesada e eletrônica.
É nesse terreno que “Tron: Ares” parece mais confortável. O filme sabe construir uma imagem, um som e uma sequência de ação. O que ele nem sempre consegue é fazer com que essas escolhas estejam subordinadas às ideias que apresenta.
A nostalgia começa a pesar

O principal obstáculo para a evolução de “Tron: Ares” está na própria franquia. O filme recupera elementos dos capítulos anteriores com frequência suficiente para deixar evidente sua preocupação em manter uma ligação com o passado.
O problema não é homenagear “Tron”. A dificuldade aparece quando essas referências ocupam espaço que poderia servir para desenvolver o novo mundo. A presença de Jeff Bridges, por exemplo, carrega um peso afetivo evidente, mas sua participação funciona mais como lembrança de outra época do que como peça indispensável para a história de Ares.
O mesmo acontece com cenários, objetos e conceitos recuperados dos filmes anteriores. Há uma diferença importante entre utilizar uma mitologia como ponto de partida e depender dela para conferir significado a uma produção que deveria apresentar algo novo.
Essa contradição fica ainda mais evidente porque “Tron: Ares” nem sequer precisa realmente de Tron, o personagem. A ausência dele revela uma questão que o filme não enfrenta diretamente: talvez o universo de “Tron” seja mais interessante do que a necessidade de manter o nome da franquia em primeiro plano.
Uma boa atualização que ainda pede permissão para existir
Existe uma versão mais ousada de “Tron: Ares” escondida dentro do próprio filme. Ela seria menos interessada em reproduzir as corridas e batalhas esperadas e mais disposta a acompanhar Ares enquanto ele tenta compreender uma existência que não deveria ser possível.
Essa história poderia explorar a inteligência artificial como uma nova forma de vida, discutir a responsabilidade de seus criadores e questionar o que acontece quando uma ferramenta desenvolve interesses próprios. O filme toca em todas essas questões, mas quase sempre retorna ao terreno seguro da aventura de franquia.
Isso faz com que “Tron: Ares” seja simultaneamente mais atual e menos surpreendente do que poderia. Sua discussão sobre IA chega em um momento oportuno, seus efeitos visuais preservam a personalidade da série e sua ação funciona. Mas a produção hesita diante da própria oportunidade de deixar “Tron” para trás e descobrir até onde esse universo pode chegar.
O futuro que a franquia imaginou há mais de quatro décadas finalmente chegou. O curioso é que, agora que ele está diante de nós, “Tron: Ares” ainda parece mais interessado em recordar como esse futuro costumava ser.




