Por que os pais ainda têm medo dos videogames depois de quase 60 anos

Pais e filhos jogam videogame juntos enquanto discutem a relação das famílias com os games
Foto: Sunrise / Pixabay

Mesmo após quase 60 anos de história, os videogames continuam enfrentando resistência dentro de muitas famílias. Uma nova pesquisa da organização sem fins lucrativos Games for Change mostra que pais e responsáveis ainda mantêm preocupações semelhantes às que surgiram nas primeiras décadas da indústria, principalmente relacionadas ao tempo de uso, possíveis impactos no comportamento e exposição a conteúdos inadequados.

O levantamento faz parte do relatório “Criando Bons Jogadores: O Que as Famílias Precisam Saber Sobre Videogames e Bem-Estar”, publicado em julho e desenvolvido por Rachel Kowert, diretora de pesquisa da organização. O estudo analisou aproximadamente 200 mil publicações em veículos de comunicação e redes sociais de 15 países, considerando sete idiomas diferentes.

Os dados indicam que a percepção pública sobre os jogos eletrônicos ainda é predominantemente negativa. De acordo com a pesquisa, conteúdos críticos ou preocupados com videogames aparecem mais de cinco vezes acima das manifestações positivas, representando uma diferença de 34% contra 6%.

Preocupações dos pais acompanham a evolução dos videogames

Desde a popularização dos primeiros consoles domésticos, os videogames passaram a ser alvo de debates sobre seus possíveis efeitos em crianças e adolescentes. Mesmo com mudanças tecnológicas e o crescimento da indústria, muitas das principais preocupações permanecem praticamente iguais.

Entre os maiores receios apontados pelos responsáveis estão o excesso de tempo diante das telas, o risco de desenvolvimento de hábitos considerados prejudiciais e o acesso a conteúdos violentos ou inadequados para determinadas idades.

Segundo Rachel Kowert, parte desse cenário está relacionada ao distanciamento entre as famílias e as pesquisas científicas mais recentes sobre jogos eletrônicos. Para a pesquisadora, muitos debates ainda utilizam argumentos antigos sem considerar completamente os estudos atuais sobre benefícios e riscos dos games.

Videogames repetem debates antigos sobre novas formas de entretenimento

A desconfiança em relação aos jogos eletrônicos segue um padrão semelhante ao observado anteriormente com outras mídias. Livros, cinema e televisão também enfrentaram períodos em que foram associados a possíveis influências negativas sobre crianças e jovens.

No caso dos videogames, a discussão ganhou características próprias porque os jogos são uma experiência interativa. O jogador não apenas acompanha uma história, mas participa diretamente das decisões e ações dentro daquele ambiente digital.

A relação entre games e violência continua sendo um dos principais pontos de debate. De acordo com a pesquisa, acontecimentos envolvendo crimes frequentemente geram associações imediatas com videogames, repetindo uma discussão que acompanha a indústria há décadas.

Crianças querem maior participação dos pais nos jogos

Apesar das preocupações, o estudo da Games for Change também identificou uma possibilidade de aproximação entre pais e filhos. Cerca de 60% das crianças entrevistadas afirmaram que gostariam de jogar mais videogames ao lado dos responsáveis.

A organização aponta que a participação dos adultos pode transformar os jogos em uma oportunidade de diálogo, permitindo que as famílias compreendam melhor esse universo e estabeleçam hábitos mais equilibrados.

Para auxiliar nesse processo, Rachel Kowert desenvolveu o modelo SPACE, uma estrutura criada para incentivar a participação dos pais:

  • Mostrar curiosidade: conhecer os jogos escolhidos pelos filhos e demonstrar interesse por suas experiências;
  • Brincar junto: participar das atividades digitais em família;
  • Ajustar-se ao contexto: analisar cada situação considerando a realidade da criança;
  • Cultivar a cidadania digital: estimular atitudes responsáveis no ambiente online;
  • Estabelecer limites juntos: criar regras de uso com participação dos filhos.

Oficinas buscam aproximar famílias do universo dos games

A iniciativa Raising Good Gamers, criada pela Games for Change, começou um projeto piloto de oficinas voltadas para pais e filhos. A proposta é ajudar as famílias a desenvolverem conversas mais abertas sobre videogames e estabelecerem acordos relacionados ao uso da tecnologia.

Após participar da experiência inicial, 82% dos responsáveis afirmaram se sentir mais preparados e confiantes para conversar com seus filhos sobre jogos eletrônicos.

Segundo Arana Shapiro, diretora de programas e operações da organização, permitir que crianças explorem os videogames com acompanhamento dos pais pode contribuir para uma relação mais saudável com a tecnologia.

A iniciativa busca substituir uma abordagem baseada apenas em preocupação por uma postura de participação, compreensão e acompanhamento do ambiente digital em que os jovens estão inseridos.

Games for Change pretende ampliar programa de orientação

A organização planeja expandir as oficinas a partir de setembro, levando o programa para instituições comunitárias nos Estados Unidos e no Reino Unido. Também estão previstos encontros online em formato de webinars.

As atividades continuarão utilizando o modelo SPACE como ferramenta para orientar famílias sobre formas de acompanhar a relação das crianças com os videogames.

A expectativa da Games for Change é incentivar uma nova maneira de discutir os jogos eletrônicos, com maior participação dos pais e menos distância entre as famílias e o universo digital dos filhos.

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