Mesmo após quase 60 anos de história, os videogames continuam enfrentando resistência dentro de muitas famílias. Uma nova pesquisa da organização sem fins lucrativos Games for Change mostra que pais e responsáveis ainda mantêm preocupações semelhantes às que surgiram nas primeiras décadas da indústria, principalmente relacionadas ao tempo de uso, possíveis impactos no comportamento e exposição a conteúdos inadequados.
O levantamento faz parte do relatório “Criando Bons Jogadores: O Que as Famílias Precisam Saber Sobre Videogames e Bem-Estar”, publicado em julho e desenvolvido por Rachel Kowert, diretora de pesquisa da organização. O estudo analisou aproximadamente 200 mil publicações em veículos de comunicação e redes sociais de 15 países, considerando sete idiomas diferentes.
Os dados indicam que a percepção pública sobre os jogos eletrônicos ainda é predominantemente negativa. De acordo com a pesquisa, conteúdos críticos ou preocupados com videogames aparecem mais de cinco vezes acima das manifestações positivas, representando uma diferença de 34% contra 6%.
Preocupações dos pais acompanham a evolução dos videogames
Desde a popularização dos primeiros consoles domésticos, os videogames passaram a ser alvo de debates sobre seus possíveis efeitos em crianças e adolescentes. Mesmo com mudanças tecnológicas e o crescimento da indústria, muitas das principais preocupações permanecem praticamente iguais.
Entre os maiores receios apontados pelos responsáveis estão o excesso de tempo diante das telas, o risco de desenvolvimento de hábitos considerados prejudiciais e o acesso a conteúdos violentos ou inadequados para determinadas idades.
Segundo Rachel Kowert, parte desse cenário está relacionada ao distanciamento entre as famílias e as pesquisas científicas mais recentes sobre jogos eletrônicos. Para a pesquisadora, muitos debates ainda utilizam argumentos antigos sem considerar completamente os estudos atuais sobre benefícios e riscos dos games.
Videogames repetem debates antigos sobre novas formas de entretenimento
A desconfiança em relação aos jogos eletrônicos segue um padrão semelhante ao observado anteriormente com outras mídias. Livros, cinema e televisão também enfrentaram períodos em que foram associados a possíveis influências negativas sobre crianças e jovens.
No caso dos videogames, a discussão ganhou características próprias porque os jogos são uma experiência interativa. O jogador não apenas acompanha uma história, mas participa diretamente das decisões e ações dentro daquele ambiente digital.
A relação entre games e violência continua sendo um dos principais pontos de debate. De acordo com a pesquisa, acontecimentos envolvendo crimes frequentemente geram associações imediatas com videogames, repetindo uma discussão que acompanha a indústria há décadas.
Crianças querem maior participação dos pais nos jogos
Apesar das preocupações, o estudo da Games for Change também identificou uma possibilidade de aproximação entre pais e filhos. Cerca de 60% das crianças entrevistadas afirmaram que gostariam de jogar mais videogames ao lado dos responsáveis.
A organização aponta que a participação dos adultos pode transformar os jogos em uma oportunidade de diálogo, permitindo que as famílias compreendam melhor esse universo e estabeleçam hábitos mais equilibrados.
Para auxiliar nesse processo, Rachel Kowert desenvolveu o modelo SPACE, uma estrutura criada para incentivar a participação dos pais:
- Mostrar curiosidade: conhecer os jogos escolhidos pelos filhos e demonstrar interesse por suas experiências;
- Brincar junto: participar das atividades digitais em família;
- Ajustar-se ao contexto: analisar cada situação considerando a realidade da criança;
- Cultivar a cidadania digital: estimular atitudes responsáveis no ambiente online;
- Estabelecer limites juntos: criar regras de uso com participação dos filhos.
Oficinas buscam aproximar famílias do universo dos games
A iniciativa Raising Good Gamers, criada pela Games for Change, começou um projeto piloto de oficinas voltadas para pais e filhos. A proposta é ajudar as famílias a desenvolverem conversas mais abertas sobre videogames e estabelecerem acordos relacionados ao uso da tecnologia.
Após participar da experiência inicial, 82% dos responsáveis afirmaram se sentir mais preparados e confiantes para conversar com seus filhos sobre jogos eletrônicos.
Segundo Arana Shapiro, diretora de programas e operações da organização, permitir que crianças explorem os videogames com acompanhamento dos pais pode contribuir para uma relação mais saudável com a tecnologia.
A iniciativa busca substituir uma abordagem baseada apenas em preocupação por uma postura de participação, compreensão e acompanhamento do ambiente digital em que os jovens estão inseridos.
Games for Change pretende ampliar programa de orientação
A organização planeja expandir as oficinas a partir de setembro, levando o programa para instituições comunitárias nos Estados Unidos e no Reino Unido. Também estão previstos encontros online em formato de webinars.
As atividades continuarão utilizando o modelo SPACE como ferramenta para orientar famílias sobre formas de acompanhar a relação das crianças com os videogames.
A expectativa da Games for Change é incentivar uma nova maneira de discutir os jogos eletrônicos, com maior participação dos pais e menos distância entre as famílias e o universo digital dos filhos.




