“Fúria”: Quincy Tyler Bernstine explica o passado de Nora e sua relação com o FBI

Quincy Tyler Bernstine interpreta Nora Washington, agente do FBI em “Fúria”.
Foto: Netflix

Desde os primeiros episódios de “Fúria”, Nora Washington parece carregar um cansaço que vai muito além da investigação conduzida por Alice Black. A veterana do FBI demonstra pouca paciência, desconfia das pessoas ao seu redor e age como alguém que já viu o sistema fracassar vezes demais.

Aos poucos, a série revela o que existe por trás dessa postura. Nora, interpretada por Quincy Tyler Bernstine, passou mais de duas décadas dentro do FBI, acompanhou colegas homens avançarem na carreira e acumulou experiências especialmente difíceis. Entre elas está o trabalho com materiais relacionados a abuso sexual infantil.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Bernstine explicou como racismo, desigualdade profissional, exposição contínua a crimes contra crianças e alcoolismo ajudam a entender a agente apresentada pela série.

As declarações chegam às vésperas do oitavo e último episódio da primeira temporada, que estreia nesta segunda-feira, 31 de agosto, no Disney+. “Fúria” já foi renovada para a segunda temporada pelo Hulu.

Nora passou mais de 20 anos vendo outros avançarem no FBI

Nora está no FBI há mais de 20 anos. Nesse período, viu homens ao seu redor avançarem profissionalmente enquanto enfrentava obstáculos que não estavam necessariamente relacionados à qualidade de seu trabalho.

Para Bernstine, é importante que “Fúria” não transforme essa desigualdade em algo que precise ser explicado constantemente ao público. A condição de Nora como mulher negra dentro da instituição faz parte da própria experiência da personagem e ajuda a explicar a postura que ela desenvolveu ao longo dos anos.

Esse desgaste se soma ao tipo de trabalho que Nora realiza. Entre suas atribuições está a análise de vídeos relacionados a abuso sexual infantil, uma atividade que Bernstine considera especialmente angustiante.

A agente precisa lidar diariamente com conteúdos perturbadores e ainda conviver com a frustração de saber que nem todas as investigações terminam com os responsáveis punidos. O resultado é uma profissional que ainda acredita no propósito do próprio trabalho, mas perdeu boa parte da ingenuidade sobre a capacidade das instituições de corrigir todas as injustiças.

Um dos momentos mais reveladores acontece quando Nora finalmente parece ter a oportunidade de colocar para fora anos de ressentimento. A sensação de vitória, porém, dura pouco.

Bernstine resume o que acontece em seguida de forma direta: “O sistema falha com ela.”

Esse aspecto também se conecta ao tema central de “Fúria”. A série acompanha mulheres que tiveram motivos para desconfiar justamente das instituições que deveriam protegê-las. Emmy Rossum, intérprete de Alice e produtora executiva da produção, já falou sobre o cuidado da equipe ao abordar a violência contra mulheres sem depender de cenas explícitas de agressão.

Alcoolismo de Nora não é tratado como caricatura

Outra parte importante da personagem é sua relação com o álcool. Nora bebe muito, mas Bernstine destacou que gostou da decisão de não retratá-la apenas por meio de cenas exageradas de embriaguez.

Na maior parte do tempo, a agente continua trabalhando e cumprindo suas funções. A atriz descreve Nora como “altamente funcional”, embora ela permaneça quase sempre em uma região intermediária entre os efeitos da bebida e a ressaca.

Isso não significa que a situação esteja sob controle. Conforme a pressão sobre a investigação aumenta, os problemas de Nora também ficam mais difíceis de esconder.

A série, porém, não apresenta esse comportamento como um defeito isolado. O alcoolismo está relacionado aos anos de frustração, ao contato constante com crimes perturbadores e ao desgaste acumulado durante sua trajetória no FBI.

A própria investigação de Alice começa a tocar em partes desse passado. No quinto episódio de “Fúria”, surgem dúvidas sobre a atuação de Nora em um antigo caso e sobre decisões tomadas anos antes.

Alice inicialmente encontra resistência quando tenta se aproximar da veterana. Para Bernstine, entretanto, existe uma razão para Nora não conseguir simplesmente ignorar a agente mais jovem.

“Nora vê muito de si mesma em Alice”, explicou a atriz.

Alice representa uma versão anterior de Nora, ainda determinada a insistir quando alguma coisa parece errada e menos acostumada a aceitar os limites impostos pela instituição. Por isso, Nora reconhece a competência da nova agente mesmo quando discorda de seus métodos ou de sua insistência.

A resistência acaba dando lugar a uma relação de parceria. Alice insiste até conquistar espaço, enquanto Nora passa também a funcionar como alguém capaz de mostrar à colega o que décadas dentro do sistema podem fazer com uma pessoa.

Essa relação ganha peso porque “Fúria” coloca suas personagens diante de uma mesma questão por caminhos diferentes: o que resta quando a Justiça não oferece a resposta esperada?

Nora continua trabalhando dentro da lei, enquanto Catherine escolheu outro caminho. Alice fica justamente entre essas duas possibilidades, tentando confiar em uma instituição enquanto descobre quantas vezes ela já deixou mulheres desamparadas.

O último episódio da primeira temporada de “Fúria” estreia nesta segunda-feira, 31 de agosto, no Disney+. A série é produzida pela 20th Television e Searchlight Television e tem Emmy Rossum, Lola Petticrew, Quincy Tyler Bernstine, Scoot McNairy e Jake Lacy no elenco.

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