“Lanternas” começa com uma ideia que poderia parecer estranha para uma série sobre um dos heróis mais cósmicos da DC: reduzir o tamanho do universo para aproximar os personagens do chão. Em vez de apresentar Hal Jordan e John Stewart em uma grande aventura espacial, a produção coloca os dois diante de um assassinato em uma pequena cidade dos Estados Unidos.
A escolha funciona melhor do que poderia parecer. A série encontra seu tom ao misturar investigação policial, ficção científica e drama de personagens. Há referências claras a “True Detective” e “Arquivo X”, mas a identidade dos Lanternas continua presente mesmo quando os anéis e os alienígenas ficam em segundo plano.
Hal Jordan e John Stewart sustentam a série

O principal acerto está na dupla formada por Kyle Chandler e Aaron Pierre. Hal é um Lanterna Verde veterano, acostumado a confiar na própria experiência e cada vez mais consciente de que seu tempo pode estar chegando ao fim.
John ainda está começando. O personagem precisa entender o significado de receber um anel e assumir uma responsabilidade que não procurou. A diferença entre os dois cria uma relação marcada por provocações, desconfiança e disputa por espaço.
Chandler aproveita bem o perfil de um homem experiente que esconde uma frustração maior do que deixa transparecer. Hal continua carismático, mas existe uma amargura por trás da postura confiante.
Pierre, por sua vez, constrói um John mais reservado. O personagem não funciona apenas como aprendiz. Sua história familiar explica boa parte da disciplina e da cobrança que ele impõe a si mesmo.
É justamente quando os dois estão juntos que “Lanternas” encontra seus melhores momentos. Muitas das cenas mais interessantes acontecem dentro de um carro, durante uma discussão ou em alguma investigação aparentemente simples.
Uma série de super-heróis que prefere investigar

A trama começa quando Hal percebe que um assassinato em Rushville, Nebraska, pode ter alguma relação com o universo dos Lanternas Verdes. John acaba envolvido na investigação e os dois precisam trabalhar juntos para descobrir o que aconteceu.
O cenário é importante para a proposta. Rushville não parece um lugar preparado para receber uma aventura intergaláctica. Há estradas, fazendas, delegacias e estabelecimentos comuns. Os elementos extraterrestres aparecem aos poucos, quase sempre interferindo em uma realidade que parece normal.
A série também evita transformar cada descoberta em um espetáculo de efeitos visuais. Mesmo quando personagens alienígenas entram na história, a produção procura manter o mistério e o clima de investigação.
Essa decisão aproxima “Lanternas” de um drama policial. Ao mesmo tempo, cria uma expectativa para quando a história finalmente ampliar seu universo.
O lado cósmico da DC fica escondido

Essa abordagem tem uma consequência evidente: quem espera uma grande aventura espacial pode sentir falta de alguns elementos tradicionais dos quadrinhos.
A Tropa dos Lanternas Verdes existe, os Guardiões estão presentes e a mitologia cósmica faz parte da história. Ainda assim, quase tudo aparece de maneira controlada.
Hal passa boa parte do tempo sem o uniforme. John ainda não domina completamente seus poderes e os dois precisam recorrer a um carro para se deslocar pela cidade.
Por mais estranho que pareça, essa contenção ajuda a série. O espectador primeiro conhece os personagens e suas relações. Só depois a produção abre espaço para mostrar o tamanho real desse universo.
O que significa merecer um anel?

É nesse ponto que “Lanternas” encontra uma ideia mais interessante do que simplesmente apresentar novos super-heróis.
Ao contrário de personagens como Superman, que não precisam ser escolhidos por uma instituição para assumir sua identidade, os Lanternas recebem uma função. O anel representa uma responsabilidade concedida pelos Guardiões.
A série aproveita essa característica para questionar o que torna alguém digno de receber esse poder. Coragem, disciplina e capacidade de enfrentar o medo aparecem como qualidades importantes, mas a história também mostra o preço de transformar essas características em uma obrigação.
A trajetória de John ajuda a desenvolver essa discussão. Desde criança, ele foi pressionado a se tornar alguém capaz de suportar qualquer desafio. Sua família tratava a coragem quase como uma prova que precisava ser constantemente demonstrada.
Hal também possui uma relação complicada com essa ideia. Sua própria definição de coragem está ligada a uma vida marcada por perdas. Para ele, enfrentar o perigo muitas vezes parece mais fácil porque já não sente que tem muito a perder.
True Detective está presente demais
A influência de “True Detective” é uma das características mais evidentes da série. A investigação em uma pequena cidade, a dupla de policiais improváveis, as conversas durante viagens de carro e o clima sombrio deixam pouco espaço para dúvidas sobre a referência.
Isso não chega a comprometer a produção, mas limita sua personalidade em alguns momentos. “Lanternas” sabe reproduzir esse tipo de atmosfera muito bem. O problema aparece quando a homenagem se torna mais perceptível do que a própria identidade da série.
A presença de Damon Lindelof, criador de “Watchmen”, e Chris Mundy, conhecido por “Ozark” e por seu trabalho em “True Detective”, ajuda a explicar essa combinação.
Mesmo assim, a série consegue evitar uma cópia completa. O relacionamento entre Hal e John adiciona uma dinâmica própria e impede que a investigação seja apenas uma repetição de uma fórmula conhecida.
Aaron Pierre ganha espaço
John Stewart também recebe uma atenção que vai além da função de parceiro de Hal. A série dedica tempo para mostrar sua família, suas inseguranças e a maneira como ele encara a responsabilidade de ser um Lanterna.
Essa construção permite que Aaron Pierre trabalhe um personagem mais contido, mas não menos expressivo. John fala pouco em determinadas situações, porém suas reações deixam claro o peso que ele carrega.
O contraste com Hal funciona porque os dois enxergam a função de maneiras diferentes. Um já está cansado dela. O outro ainda está tentando descobrir se realmente quer esse caminho.
Nem tudo funciona no mesmo nível
Os problemas aparecem quando a série se afasta dessa dupla. Alguns relacionamentos amorosos parecem menos desenvolvidos e determinados elementos da investigação não possuem a mesma força do conflito entre os protagonistas.
A própria mistura de gêneros pode causar alguma irregularidade. “Lanternas” quer ser um drama policial, uma história de ficção científica e uma produção de super-heróis ao mesmo tempo. Em alguns momentos, essas partes se encaixam muito bem. Em outros, uma parece interromper a outra.
A contenção do universo cósmico também será uma questão de gosto. Para alguns espectadores, ela torna a série mais acessível. Para outros, pode parecer que a produção está escondendo justamente aquilo que torna os Lanternas diferentes de outros heróis da DC.
Um caminho promissor para a DC
“Lanternas” não precisa transformar Hal Jordan e John Stewart em heróis tradicionais para funcionar. Seu maior mérito está justamente em perceber que os dois podem sustentar uma boa história antes mesmo de usarem seus poderes em grande escala.
A série funciona quando coloca os personagens no centro. A química entre Chandler e Pierre dá peso às investigações, enquanto o conflito entre mentor e aprendiz cria uma relação que pode crescer ao longo da temporada.
As referências a “True Detective” são evidentes demais para serem ignoradas, e a produção ainda precisa encontrar um equilíbrio melhor entre o drama policial e a mitologia da DC. Mesmo assim, existe uma identidade interessante nessa escolha.
Para o novo DCU, “Lanternas” representa uma aposta diferente. Em vez de tentar competir com grandes batalhas desde o primeiro episódio, a série constrói seu universo a partir de duas pessoas tentando descobrir o que significa carregar um anel.
Se mantiver esse equilíbrio, a produção pode fazer de Hal Jordan e John Stewart uma das duplas mais interessantes dessa nova fase da DC.
“Lanternas” estreia no Brasil em 16 de agosto de 2026, às 22h, com transmissão simultânea na HBO e na HBO Max.







