Existe uma ironia difícil de ignorar em “Coyote vs. Acme”. O filme acompanha Wile E. Coyote tentando enfrentar judicialmente a empresa responsável pelas armadilhas que transformaram sua vida em uma sequência interminável de fracassos. Fora das telas, porém, a própria produção passou anos lutando para chegar ao público depois de ser colocada em risco pela Warner Bros. Discovery.
Essa coincidência dá ao longa de Dave Green uma camada de significado que não depende da intenção original do projeto. A história coloca um personagem pequeno contra uma gigantesca corporação, enquanto o próprio filme precisou superar decisões empresariais que ameaçaram seu lançamento. É uma daquelas situações em que a realidade acaba fornecendo uma leitura adicional para aquilo que está na tela.
Quando os Looney Tunes encontram o mundo real

A proposta original de “Coyote vs. Acme” já era suficientemente interessante. Com roteiro baseado em uma história de Ian Frazier e desenvolvido por nomes como James Gunn, o filme coloca Wile E. Coyote em um cenário live-action no qual os personagens dos Looney Tunes convivem diretamente com seres humanos.
Depois de mais uma sequência de acidentes provocados pelos produtos da Acme, o Coyote decide processar a empresa. Para isso, conta com o advogado Kevin Avery, interpretado por Will Forte. John Cena aparece como o representante jurídico da Acme, enquanto Lana Condor interpreta a assistente de Avery.
O grande mérito de Dave Green está em entender que essa mistura não precisa funcionar apenas como um exercício de nostalgia. Os personagens animados continuam submetidos à lógica absurda dos desenhos, enquanto o mundo humano tenta reagir a situações que desafiam qualquer regra de realidade.
Uma estrada pode ser sacudida como um tapete, um personagem pode desafiar as leis da física e uma situação completamente comum pode rapidamente assumir proporções cartunescas. São momentos em que a produção encontra a linguagem própria dos Looney Tunes dentro de um filme de ação e comédia live-action.
O resultado supera, em criatividade e integração entre os dois universos, outras experiências semelhantes envolvendo os personagens, como “Looney Tunes: De Volta à Ação” e “Space Jam”. Não porque esses filmes não tenham seus méritos, mas porque aqui a animação não parece simplesmente colocada sobre uma história de atores reais.
O Coyote finalmente ganha uma história

O personagem também se beneficia de uma mudança importante. Durante décadas, Wile E. Coyote existiu principalmente para fracassar. Sua função era elaborar uma armadilha, acreditar que finalmente capturaria o Papa-Léguas e sofrer as consequências de sua própria estratégia.
“Coyote vs. Acme” mantém essa característica, mas encontra uma maneira de transformá-la em parte de sua trajetória dramática. A repetição dos fracassos passa a representar persistência, e o Coyote ganha uma motivação que vai além de simplesmente tentar capturar sua presa.
Essa ideia também se conecta ao próprio Kevin Avery. O advogado passou a carreira evitando grandes processos e escolhendo casos menores para reduzir o risco de fracasso. Quando os dois se encontram, a história começa a estabelecer um paralelo entre o animal que nunca desiste e o homem que passou a vida tentando não perder.
A referência ao mito de Sísifo funciona justamente nesse ponto. Assim como a figura condenada a empurrar uma pedra morro acima para vê-la retornar ao ponto de partida, o Coyote repete eternamente uma tarefa que parece impossível. A diferença é que, no universo dos Looney Tunes, continuar tentando é justamente parte da graça.
Uma crítica que não pesa sobre o filme

A Acme permite que o roteiro introduza uma discussão sobre o poder das grandes corporações e a dificuldade de enfrentar empresas muito maiores. O conflito judicial dá ao filme uma estrutura tradicional de tribunal, enquanto os personagens animados permitem que essa história seja conduzida dentro de uma lógica completamente absurda.
É uma combinação curiosa porque o longa não precisa escolher entre ser uma aventura dos Looney Tunes e uma história sobre alguém tentando enfrentar uma corporação. As duas coisas convivem, ainda que os argumentos jurídicos sejam necessariamente simplificados para acompanhar o tom fantástico da produção.
Ao mesmo tempo, o filme não chega a desenvolver uma reflexão especialmente profunda sobre capitalismo ou monopólios. Essa camada funciona melhor como complemento do que como centro da experiência. Quando o roteiro tenta aprofundar demais os personagens humanos, a produção perde parte da imaginação que aparece com tanta facilidade nas cenas envolvendo o Coyote.
Esse é um dos principais limites de “Coyote vs. Acme”. Will Forte, Lana Condor e John Cena cumprem bem suas funções e servem como contraponto para a loucura dos personagens animados, mas os conflitos exclusivamente humanos são menos interessantes do que aquilo que acontece quando a animação invade o mundo real.
A ironia de um filme quase escondido

É impossível, entretanto, analisar “Coyote vs. Acme” sem considerar a história de seu próprio lançamento. A Warner Bros. Discovery decidiu não seguir com o lançamento planejado do longa, colocando em risco uma produção que já estava concluída.
A situação ganhou uma ironia ainda maior porque o próprio filme conta a história de um personagem tentando expor os problemas de uma grande empresa. O slogan “O filme que Acme não quer que você veja” acabou adquirindo um significado quase metalinguístico diante do destino que a produção enfrentou.
Uma empresa menor, a Ketchup Entertainment, acabou assumindo a distribuição do longa, enquanto a Warner Bros. continuou ligada à produção e aos personagens dos Looney Tunes. Assim, um filme sobre um personagem pequeno enfrentando uma corporação chegou aos cinemas depois de uma trajetória que, por motivos diferentes, lembrava parcialmente seu próprio conflito.
Essa circunstância não torna automaticamente o filme melhor, mas muda a maneira como algumas de suas ideias são percebidas. O espectador sabe que está assistindo a uma obra que quase ficou fora do alcance do público, o que torna sua própria existência parte da experiência.
O que sobra quando a Acme sai de cena?
Talvez a melhor característica de “Coyote vs. Acme” seja justamente entender que a Acme não precisa ser o coração dos Looney Tunes. Ela é uma ferramenta que permite ao Coyote continuar tentando capturar o Papa-Léguas, mas a essência da dupla existe antes e depois de qualquer produto.
O filme consegue brincar com essa ideia ao questionar a responsabilidade da Acme pelos fracassos do Coyote. Afinal, se os produtos são defeituosos, a culpa é da empresa. Mas se o Coyote é capaz de construir armadilhas cada vez mais elaboradas, talvez o problema seja simplesmente o fato de que o Papa-Léguas é impossível de capturar.
É nesse paradoxo que a produção encontra seu melhor humor. O julgamento pode discutir contratos, produtos e responsabilidade, mas existe uma verdade que nenhum argumento jurídico consegue mudar: o Coyote e o Papa-Léguas são inseparáveis.
“Coyote vs. Acme” não é um filme especialmente profundo, mas também não precisa ser. Seu maior mérito está em recuperar a liberdade criativa dos Looney Tunes, encontrar uma boa dinâmica entre animação e live-action e dar ao Coyote uma história capaz de transformar seus fracassos repetidos em algo emocionalmente significativo.
No fim, a melhor leitura talvez seja também a mais simples. O Coyote continua caindo de penhascos, explodindo, errando e tentando novamente. A diferença é que agora existe uma história por trás dessa persistência. E enquanto o Papa-Léguas continuar correndo, sempre haverá uma razão para ele tentar mais uma vez.






