Em “Sirat”, Oliver Laxe constrói um filme que muda diante do espectador sem anunciar suas próprias transformações. O que começa como uma busca desesperada por uma filha desaparecida aos poucos abandona as referências mais reconhecíveis de um drama familiar, passa pelo road movie e desemboca em uma experiência cada vez mais abstrata, física e inquietante.
Essa mudança não funciona apenas como uma surpresa narrativa. Ela define a própria maneira como Laxe conduz o público. O diretor começa oferecendo personagens, objetivos e relações relativamente fáceis de compreender. Depois, retira pouco a pouco essas referências e deixa que o ambiente, o som e a sensação de ameaça ocupem o espaço que antes pertencia à história. Quando o filme chega a esse ponto, já não importa tanto saber para onde aquelas pessoas estão indo. Importa entender o que resta delas enquanto continuam avançando.
Uma busca que perde o caminho conhecido

Luis, interpretado por Sergi López, atravessa o deserto marroquino ao lado do filho Esteban em busca de Mar, desaparecida há meses. Uma pista os leva até uma comunidade ligada às raves itinerantes que percorrem a região. O encontro poderia servir como ponto de partida para um thriller convencional sobre desaparecimento, mas Laxe prefere observar aquelas pessoas antes de revelar até onde pretende levar sua história.
O grupo formado por Jade, Steffi, Josh, Tonin e Bigui apresenta um contraste interessante com Luis e Esteban. Eles vivem em movimento, cercados por veículos adaptados, festas e uma rotina que parece existir à margem da sociedade. Luis chega como alguém que procura uma pessoa específica; os demais parecem ter construído uma maneira própria de existir naquele espaço.
A aproximação entre esses personagens dá ao filme uma aparência quase confortável. Existe humor, há momentos de afeto e até uma dinâmica de família improvisada começa a surgir. A paisagem permanece imensa, mas o perigo parece distante. Laxe deixa essa sensação crescer antes de desmontá-la.
Quando a história sofre sua ruptura central, “Sirat” muda de natureza. O desaparecimento deixa de funcionar como o principal motor da narrativa, e a viagem passa a representar outra coisa. O deserto já não é apenas o lugar onde os personagens procuram alguém. Ele se transforma em um espaço de perda, isolamento e sobrevivência, no qual antigas certezas deixam de oferecer proteção.
O filme muda porque os personagens mudam

Essa transformação é o aspecto mais interessante da obra. Laxe não utiliza a mudança de gênero como simples truque para surpreender. Ele modifica a linguagem do filme conforme seus personagens perdem aquilo que sustentava suas vidas.
No início, Luis ainda possui uma missão clara. Existe uma filha a encontrar, uma pista a seguir e um motivo para continuar. Conforme essas referências desaparecem, a narrativa também abandona sua estrutura inicial. O que antes parecia uma viagem com destino começa a parecer um deslocamento sem garantia de chegada.
O resultado aproxima “Sirat” de filmes de estrada, histórias de sobrevivência e ficções apocalípticas sem se acomodar completamente em nenhum desses caminhos. Laxe incorpora elementos desses gêneros para depois deformá-los. A viagem continua, mas o sentido dela muda constantemente.
Essa escolha também explica por que o filme pode provocar reações tão diferentes ao longo de sua duração. A primeira metade permite que o espectador estabeleça vínculos e expectativas. A segunda utiliza esses vínculos contra ele. O filme não quer apenas contar uma história sobre pessoas submetidas a circunstâncias extremas; quer observar como uma pessoa se comporta quando as estruturas que davam significado à sua existência começam a desaparecer.
O deserto como força narrativa

A paisagem ocupa um papel tão importante quanto os personagens. Laxe transforma o deserto marroquino em uma presença constante, quase indiferente ao que acontece ao redor. As montanhas, as estradas improvisadas e os espaços vazios criam uma sensação de distância que aumenta conforme a narrativa se torna mais imprevisível.
A fotografia de Mauro Herce evita tratar esse cenário apenas como cartão-postal. O deserto parece amplo demais para os personagens e, justamente por isso, produz uma tensão particular. Eles podem continuar avançando, mas o espaço não oferece a sensação de progresso. Cada quilômetro percorrido parece aprofundar a separação entre aquilo que conheciam e aquilo que estão prestes a enfrentar.
A música de Kangding Ray reforça essa percepção. O som eletrônico não funciona simplesmente como acompanhamento das raves. Ele dá ao filme uma dimensão física. Graves e ruídos ocupam o espaço, fazendo com que o espectador perceba o ambiente antes mesmo de compreender completamente o que está acontecendo nele.
Essa relação entre imagem e som ajuda Laxe a conduzir a mudança de registro. O filme começa próximo das pessoas e termina cada vez mais próximo das sensações. A narrativa continua presente, mas deixa de ser a única maneira de compreender o que está acontecendo.
Quando a narrativa abandona as respostas

“Sirat” não oferece uma explicação confortável para suas transformações. O filme apresenta situações que podem ser lidas de maneira concreta, simbólica ou espiritual e não escolhe uma interpretação definitiva. A referência ao Sirat, a ponte que, segundo a tradição islâmica, separa o mundo dos vivos do destino após a morte, ajuda a ampliar essa dimensão, mas não encerra o significado da história.
Laxe parece mais interessado nas perguntas que surgem quando uma pessoa perde suas referências do que nas respostas para elas. O que permanece quando família, segurança, objetivo e esperança deixam de cumprir suas funções? Até onde alguém consegue avançar quando continuar parece ser a única alternativa?
É nesse ponto que a transformação formal encontra a transformação temática. O filme muda de gênero porque sua visão de mundo também mudou. A aventura inicial perde espaço para uma experiência sobre vulnerabilidade. A busca por uma pessoa dá lugar a uma luta contra um ambiente que parece não reconhecer qualquer diferença entre culpa, inocência, coragem ou desespero.
Mesmo quando “Sirat” se aproxima do absurdo, Laxe mantém controle sobre o tom. O diretor não tenta tornar cada acontecimento imediatamente compreensível. Ele permite que determinadas imagens permaneçam estranhas e que algumas situações provoquem mais perguntas do que respostas. Essa confiança impede que a obra se reduza a uma sequência de reviravoltas destinadas apenas a chocar.
Uma experiência que não permanece igual
O maior mérito de “Sirat” está justamente em não permanecer o mesmo filme durante sua duração. A mudança poderia fragmentar a experiência, mas Laxe utiliza a ruptura para aprofundar aquilo que já estava presente desde o começo: a fragilidade das pessoas diante de forças que não conseguem controlar.
Por isso, sua estranheza não funciona como simples excentricidade. Ela acompanha o processo de desorientação dos personagens. Quanto menos eles entendem o mundo ao redor, menos convencional se torna a linguagem utilizada pelo próprio filme.
Essa escolha exige alguma disposição do público. Quem esperar que a história siga uma linha clara até o fim pode encontrar frustração em determinadas passagens. Quem aceitar a transformação como parte fundamental da experiência encontrará uma obra que utiliza o cinema para representar uma perda de controle que dificilmente caberia em uma narrativa convencional.
“Sirat” começa como uma busca e termina em outro lugar. Entre esses dois pontos, Oliver Laxe desmonta gradualmente as expectativas que criou, troca o conforto da explicação pela incerteza e transforma uma viagem pelo deserto em uma reflexão sobre o que acontece quando já não existe um caminho seguro para seguir. É justamente nessa mudança que o filme encontra sua força.




