Crítica: “Monster: A História de Lizzie Borden” encontra força ao transformar um crime em tragédia familiar

Ella Beatty vive Lizzie Borden em uma temporada de "Monster" focada na história por trás do crime.
Foto: Netflix

“Monster: A História de Lizzie Borden” começa com uma imagem que resume bem a proposta da quarta temporada da antologia de Ryan Murphy e Ian Brennan. Lizzie Borden (Ella Beatty) atravessa a casa da família com uma camisola branca e um machado nas mãos. Pouco depois, sua madrasta Abby (Rebecca Hall) e seu pai Andrew (Charlie Hunnam) estão mortos.

A sequência poderia funcionar apenas como uma reconstituição estilizada do famoso crime ocorrido em 1892. A série, porém, faz uma escolha mais interessante: depois de mostrar o fim, volta quatro meses no tempo para entender a mulher que chegou até aquele momento.

É nesse intervalo que “Monster: A História de Lizzie Borden” encontra sua identidade. Em vez de tratar Lizzie como uma assassina que simplesmente perdeu o controle, a temporada acompanha uma mulher presa em uma família opressiva e em uma sociedade que oferece pouquíssimas possibilidades para alguém como ela.

Uma Lizzie diferente dos outros monstros

"Monster: A História de Lizzie Borden" apresenta uma versão dramatizada da trajetória de Lizzie antes do crime.
Foto: Netflix

Lizzie não é apresentada como uma personagem naturalmente cruel. Ela é estranha aos olhos das pessoas ao redor, tem dificuldades para encontrar um marido e sofre com dores menstruais intensas. Dentro de casa, também não encontra acolhimento.

Andrew mantém uma relação distante com a filha, enquanto Abby exerce um controle sufocante sobre a rotina doméstica. Rebecca Hall aproveita bem essa posição. Sua Abby não precisa estar constantemente gritando ou ameaçando Lizzie para causar desconforto. Pequenos gestos e exigências domésticas já deixam claro o desequilíbrio daquela relação.

O interessante é que a série não transforma Lizzie imediatamente em uma vítima perfeita. Ela continua sendo peculiar, às vezes infantil e difícil de compreender. Essa ambiguidade é importante porque impede que a personagem seja reduzida a uma justificativa para os assassinatos que virão.

Ella Beatty também entende essa contradição. Sua interpretação passa rapidamente da ingenuidade para uma raiva contida. Lizzie parece estar sempre observando o ambiente ao redor, como se estivesse aprendendo até onde pode ser pressionada.

Bridget abre uma porta para outro mundo

"Monster: A História de Lizzie Borden" acompanha a relação de Lizzie com sua família antes dos assassinatos.
Foto: Netflix

A chegada de Bridget Sullivan (Vicky Krieps) muda a dinâmica da história. A nova empregada conhece outras realidades e leva para dentro da casa dos Borden histórias de Paris, conhecimentos sobre remédios e uma visão de mundo que Lizzie não encontra em sua família.

A amizade entre as duas funciona porque não depende apenas de uma identificação imediata. Bridget representa uma possibilidade. Pela primeira vez, Lizzie consegue imaginar que existe alguma coisa além da rotina determinada pelo pai e pela madrasta.

Quando Abby ultrapassa mais uma vez os limites da crueldade, a relação entre as duas deixa de ser apenas uma amizade. É nesse momento que a série começa a aproximar suas protagonistas do crime que o público já sabe que acontecerá.

Essa construção é mais eficiente do que simplesmente apresentar Lizzie como uma mulher desesperada. A série mostra como pequenas humilhações, limitações e abusos se acumulam até que a personagem passe a enxergar a violência como uma possibilidade de liberdade.

O horror também tem espaço para humor

Ella Beatty interpreta Lizzie Borden na quarta temporada de "Monster", da Netflix.
Foto: Netflix

Apesar da natureza brutal da história, “Monster: A História de Lizzie Borden” não permanece presa a um tom sombrio. A direção aposta em cores fortes, elementos de fantasia e uma estética deliberadamente exagerada.

O resultado é uma temporada que pode ser violenta em uma cena e quase divertida na seguinte. Essa mistura combina especialmente com a maneira como Lizzie é retratada. Existe algo de absurdo na situação daquela família, e a série não tem medo de explorar isso.

O problema é que essa liberdade estética também pode afastar quem procura uma reconstrução histórica mais rigorosa. A produção deixa claro desde os primeiros episódios que sua prioridade não é reproduzir cada acontecimento como ele ocorreu, mas construir uma interpretação dramática do caso.

Quando “Monster” olha para outras assassinas

"Monster: A História de Lizzie Borden" transforma o crime de 1892 em uma tragédia familiar.
Foto: Netflix

A antologia também mantém uma característica que pode dividir o público: a vontade de conectar sua história principal a outras figuras criminosas conhecidas.

A presença de Aileen Wuornos, interpretada por Sarah Paulson, é o exemplo mais evidente. A personagem pertence a outro período histórico e sua ligação com a narrativa de Lizzie pode parecer artificial. Depois de acompanhar apenas os dois primeiros episódios, ainda não é possível saber se essa escolha terá uma função relevante ou se servirá apenas como uma conexão dentro do universo de “Monster”.

A referência a Elizabeth Báthory funciona melhor. Bridget conta a Lizzie a história da condessa húngara associada à lenda de que se banhava em sangue para preservar sua beleza. A sequência não está ali apenas para acrescentar mais uma figura macabra.

Ela conversa diretamente com um dos temas da temporada: a maneira como a aparência feminina é usada para definir o valor de uma mulher. Nesse caso, o exagero gótico ajuda a reforçar a ideia em vez de tirar a história de seu eixo.

O crime é apenas o ponto de partida

Os dois primeiros episódios mostram que “Monster: A História de Lizzie Borden” está menos interessada em responder novamente às perguntas sobre o crime de 1892 do que em imaginar a mulher por trás dele.

Essa liberdade é também sua principal força e sua principal limitação. Quem procura uma versão histórica definitiva encontrará uma narrativa bastante dramatizada. Já quem aceita a proposta como uma interpretação ficcional encontrará uma temporada com uma protagonista mais complexa do que a imagem tradicional da assassina.

A série ainda precisa provar que consegue sustentar essa abordagem durante os oito episódios. Por enquanto, porém, a mudança de foco funciona. Lizzie não é apenas o monstro que aparece no início da história. Ela é também o resultado de uma família, de uma época e de uma sociedade que constantemente lhe dizem qual deveria ser o seu lugar.

É justamente nessa contradição que a quarta temporada encontra seu melhor material. “Monster: A História de Lizzie Borden” não precisa transformar Lizzie em inocente para humanizá-la. Basta mostrar como uma mulher pode ser vítima de um ambiente opressor e, ao mesmo tempo, tornar-se responsável por atos monstruosos.

“Monster: A História de Lizzie Borden” está disponível para streaming na Netflix.

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