Uma garota coloca a própria consciência dentro de um castor robótico e passa a viver entre animais que não fazem ideia de que existe uma humana escondida naquele corpo. É uma premissa tão estranha que poderia facilmente parecer apenas mais uma excentricidade de animação. Em “Hoppers”, porém, a ideia serve como porta de entrada para uma aventura que mistura preservação ambiental, ficção científica, comédia e uma boa dose de absurdo.
Mabel (Piper Curda) tem 19 anos e cresceu apaixonada pela natureza. A influência da avó Tanaka (Karen Huie) fez com que ela enxergasse a floresta como algo muito maior do que um espaço verde ameaçado pelo desenvolvimento urbano. Anos depois, já na universidade, essa relação se transforma em ativismo. O problema surge quando o prefeito Jerry (Jon Hamm) decide construir uma estrada que atravessará justamente a região que Mabel tenta proteger.
Até aqui, “Hoppers” parece caminhar para uma história relativamente convencional sobre uma jovem ambientalista enfrentando um político disposto a sacrificar a natureza pelo progresso. A Pixar, no entanto, tem outras ideias. A professora de biologia de Mabel, Dra. Sam (Kathy Najimy), esconde uma invenção capaz de transferir a consciência humana para corpos artificiais de animais.
Mabel aceita participar do experimento e passa a existir como um castor. Só que não se trata de um animal comum. É um robô projetado para se misturar à comunidade da floresta. A partir dessa mudança, o filme abandona qualquer pretensão de seguir um caminho previsível.
Uma protagonista presa entre dois mundos

Existe uma boa ideia escondida nessa transformação. Mabel passa a observar os animais de uma posição que nenhum ser humano poderia alcançar. Ela conhece a linguagem, os costumes e os conflitos humanos, mas agora precisa compreender uma sociedade construída a partir de outras necessidades.
O filme brinca com essa situação sem transformar a tecnologia em seu assunto principal. A transferência de consciência não precisa ser explicada em detalhes para funcionar. Ela simplesmente coloca a protagonista dentro de uma realidade diferente e permite que a história explore as consequências.
Isso também cria uma brincadeira inteligente com uma das tradições mais antigas da animação: o antropomorfismo. Animais falantes são tão comuns no gênero que quase não questionamos mais a ideia. “Hoppers” acrescenta uma camada curiosa a essa convenção. Mabel parece um animal de desenho animado porque, tecnicamente, é uma humana escondida em uma máquina construída para parecer um deles.
A situação poderia resultar apenas em uma sequência de piadas. Daniel Chong, porém, usa a premissa para ampliar o universo da história. A floresta passa a ter suas próprias relações de poder, seus próprios conflitos e uma comunidade muito mais complexa do que Mabel imaginava.
Os animais roubam a cena

Entre os personagens que ajudam a dar personalidade a esse mundo está George, o rei dos castores, dublado por Bobby Moynihan. Ele acredita na convivência e tenta enxergar alguma humanidade até mesmo em quem ameaça seu povo.
A filosofia de George é colocada à prova pelo prefeito Jerry, que pretende destruir a represa dos castores e instalar estruturas capazes de produzir um ruído insuportável para os animais. O conflito ambiental, portanto, deixa de ser apenas uma questão política e passa a ameaçar diretamente o equilíbrio daquele ecossistema.
A partir daí, “Hoppers” começa a se comportar como uma comédia de personagens. A Rainha dos Insetos, dublada por Meryl Streep, surge com uma autoridade que lembra uma versão diminuta de Miranda Priestly. Dave Franco empresta a voz ao filho dela, Titus, enquanto Vanessa Bayer interpreta Diane, uma tubarão-branco que participa de uma das sequências mais absurdas da animação.
É justamente esse tipo de desvio que mantém o filme interessante. Uma perseguição envolvendo animais marinhos, pássaros e veículos poderia parecer deslocada em outra produção. Aqui, faz parte de uma lógica de exagero que “Hoppers” assume sem pedir desculpas.
O humor funciona melhor quando o filme permite que seus personagens sejam contraditórios. Os animais podem defender a paz enquanto vivem em um ecossistema baseado na sobrevivência. A natureza é apresentada como algo digno de proteção, mas também como um lugar onde a violência faz parte da vida.
Quando a aventura fica maior que a mensagem

O tema ambiental poderia facilmente transformar “Hoppers” em uma animação excessivamente didática. O roteiro evita esse caminho ao colocar a preservação da floresta dentro de uma aventura cada vez mais caótica.
A mensagem central é simples: problemas que afetam uma comunidade inteira não podem ser resolvidos por uma única pessoa. Mabel começa acreditando que sua determinação será suficiente para enfrentar o prefeito. Aos poucos, ela percebe que precisa conquistar aliados e compreender interesses que não são necessariamente iguais aos seus.
Essa ideia ganha força porque a história não trata a colaboração como uma solução mágica. George precisa rever algumas de suas próprias convicções. Mabel também precisa abandonar a visão limitada que tinha sobre os animais. Até mesmo Jerry recebe espaço para deixar de ser apenas o político ganancioso apresentado no começo.
Jon Hamm aproveita essa mudança para dar ao prefeito uma dimensão maior do que a caricatura inicial sugere. A arrogância continua presente, mas o personagem ganha outras camadas conforme a disputa avança.
Piper Curda acompanha esse processo com uma Mabel que não depende apenas de energia e entusiasmo. A personagem também demonstra insegurança e dificuldade para entender quando sua paixão pela causa começa a impedir que ela escute outras pessoas.
Uma Pixar que aceita o absurdo

O maior mérito de “Hoppers” está na disposição de Daniel Chong para não permanecer parado em uma única ideia. A história começa como uma aventura ambiental, passa pela ficção científica e encontra espaço para espionagem, comédia física e conflitos dentro da própria sociedade animal.
Essa sucessão poderia produzir uma animação desorganizada. Em boa parte do tempo, acontece o contrário. Cada nova camada abre espaço para outra possibilidade e impede que a aventura fique presa ao conflito inicial entre Mabel e Jerry.
Nem todas essas ideias têm o mesmo peso. Algumas aparecem mais como oportunidades para uma piada ou uma sequência visual do que como elementos realmente desenvolvidos. Ainda assim, existe uma energia rara na maneira como o filme se permite experimentar.
A animação também encontra um equilíbrio interessante entre a fantasia e uma observação mais séria sobre a natureza. Os animais não são apresentados apenas como versões fofas de seres humanos. Eles possuem comportamentos próprios, interesses diferentes e uma relação com a sobrevivência que nem sempre combina com a visão idealizada de Mabel.
É aí que “Hoppers” se aproxima de uma tradição muito particular da Pixar. O filme parte de uma ideia que parece feita para crianças e encontra maneiras de conversar com adultos sem precisar transformar cada cena em uma lição.
Uma aventura irregular, mas cheia de vida
“Hoppers” não tem a mesma força emocional dos maiores clássicos da Pixar. Sua história é mais interessada em surpreender do que em construir um drama profundo, e algumas das ideias introduzidas pelo roteiro passam rápido demais para alcançar todo o potencial.
Mesmo assim, há algo particularmente agradável na falta de cerimônia do filme. Mabel poderia ter sido apenas mais uma protagonista determinada a salvar a natureza. A decisão de colocá-la dentro de um castor robótico muda completamente a escala da aventura.
O filme encontra seu melhor momento quando deixa de tentar parecer importante e simplesmente se diverte com a própria premissa. George, Mabel, Jerry e a coleção de animais excêntricos funcionam porque pertencem a um universo em que uma consciência humana pode entrar em um castor mecânico e, algumas cenas depois, participar de uma perseguição completamente absurda.
Essa liberdade é o que torna “Hoppers” uma experiência tão simpática. A Pixar não apresenta aqui uma nova obra-prima, mas recupera uma qualidade que fez parte de seus melhores trabalhos: a capacidade de transformar uma ideia improvável em uma aventura que parece maior, mais estranha e mais divertida do que deveria.
Talvez seja justamente essa disposição para não saber até onde a própria premissa pode chegar que faça “Hoppers” funcionar. A aventura começa com uma garota querendo proteger uma floresta e termina muito mais interessada em mostrar como é estranho, divertido e necessário enxergar a natureza por outro ponto de vista.




