Tommy Shelby nunca foi apenas um criminoso elegante de terno impecável. Desde o início de “Peaky Blinders”, o personagem interpretado por Cillian Murphy sempre carregou uma contradição que definia sua força: ele era um homem capaz de controlar todos ao seu redor, mas completamente incapaz de controlar os próprios fantasmas. Em “Peaky Blinders: O Homem Imortal”, essa fragilidade finalmente ocupa o centro da história.
O retorno da família Shelby ao cinema não acontece como uma celebração simples daquilo que tornou a série famosa. Steven Knight entende que o maior desafio não era repetir a fórmula de sucesso, mas mostrar o que restou de Tommy depois de anos vivendo entre poder, violência e perdas irreparáveis.
O resultado é um capítulo mais melancólico da trajetória do personagem. A ambição continua presente, assim como a inteligência estratégica que transformou Tommy em uma lenda dentro e fora de Birmingham, mas existe agora uma sensação constante de desgaste. O homem que construiu um império começa a perceber que talvez tenha perdido tudo que realmente importava no processo.
Ambientado durante a Segunda Guerra Mundial, o filme coloca os Peaky Blinders diante de uma ameaça maior do que suas antigas disputas criminosas. O surgimento de uma conspiração envolvendo fascistas britânicos e uma operação de dinheiro falso força Tommy a abandonar o isolamento e retornar ao mundo que tentou deixar para trás.
Essa escolha permite que “O Homem Imortal” funcione como uma reflexão sobre legado. A questão principal não é apenas se Tommy Shelby ainda consegue vencer seus inimigos, mas se aquilo que ele construiu continuará existindo quando ele não estiver mais no controle.
Tommy Shelby e o peso de uma lenda criada por ele mesmo

Uma das decisões mais interessantes do filme é apresentar um Tommy diferente daquele que dominava as primeiras temporadas. O personagem ainda possui a mesma capacidade de manipulação, mas Cillian Murphy interpreta cada gesto com uma tristeza que antes ficava escondida atrás da arrogância.
Murphy entende que o poder de Tommy sempre esteve no silêncio. Ele nunca precisou levantar a voz para ameaçar alguém. Um olhar, uma pausa ou uma pequena mudança na expressão eram suficientes para mostrar que ele estava vários passos à frente.
Neste retorno, porém, esse silêncio ganha outro significado. Tommy não parece apenas calculista; ele parece cansado. Existe um homem tentando sobreviver à própria memória, carregando mortes, culpas e escolhas que continuam perseguindo sua consciência.
A atuação de Murphy é justamente o que impede o filme de ser apenas uma continuação nostálgica. O ator transforma Tommy em uma figura quase trágica, alguém que conquistou respeito no mundo inteiro, mas nunca conseguiu encontrar paz dentro da própria família.
Uma nova geração tentando ocupar o lugar dos Shelby

O maior conflito de “Peaky Blinders: O Homem Imortal” não está apenas entre Tommy Shelby e seus inimigos. Está também na tentativa de entender o que acontece quando uma geração construída pela violência precisa entregar seu legado para aqueles que vieram depois.
É nesse ponto que Barry Keoghan ganha importância como Duke Shelby, o filho de Tommy que assume uma posição cada vez mais central dentro da família. Diferente do pai, Duke não possui o mesmo controle emocional ou a mesma visão estratégica. Ele é impulsivo, instável e guiado por uma necessidade quase desesperada de provar seu valor.
Keoghan transforma o personagem em uma presença desconfortável. Existe nele a mesma ameaça que marcou outros grandes antagonistas da franquia, mas também uma vulnerabilidade que revela alguém tentando preencher um espaço que nunca foi realmente seu.
A relação entre Tommy e Duke funciona como uma extensão dos maiores temas da série. Tommy passou a vida tentando escapar da influência de seu próprio pai, Joe Shelby, enquanto agora precisa lidar com um filho que carrega justamente as consequências das escolhas que ele fez.
O filme entende que o verdadeiro legado de Tommy não são os negócios, os territórios ou o respeito conquistado nas ruas. Seu maior legado é a marca emocional deixada nas pessoas próximas, especialmente dentro da própria família.
O retorno ao mundo dos Peaky Blinders

Visualmente, “O Homem Imortal” mantém aquilo que sempre foi uma das maiores forças da franquia. A fotografia de George Steel transforma a Inglaterra durante a guerra em um ambiente pesado, marcado por fumaça, destruição e uma sensação constante de ameaça.
A produção preserva o estilo característico da série, desde os figurinos impecáveis até a combinação entre violência estilizada e atmosfera de época. Os ternos, os casacos e as boinas continuam funcionando como parte da identidade dos personagens, quase como uma armadura contra um mundo cada vez mais caótico.
O filme também mantém a relação particular da franquia com a música moderna. A trilha sonora continua tentando criar uma ponte entre passado e presente, embora algumas escolhas já não tenham o mesmo impacto de antes e possam soar menos provocativas após tantos anos.
O problema é que essa familiaridade também revela algumas limitações. Em determinados momentos, “O Homem Imortal” parece confiar demais no carinho do público pela marca “Peaky Blinders”, repetindo símbolos e situações que funcionavam melhor quando eram novidades.
Uma despedida que escolhe a memória em vez da surpresa

Steven Knight não tenta transformar “Peaky Blinders: O Homem Imortal” em uma reinvenção da franquia. O filme é construído como uma conclusão emocional, uma despedida de personagens que passaram anos presos entre ambição e arrependimento.
Essa escolha faz com que a produção seja mais eficiente quando observa seus personagens do que quando aposta nas grandes sequências de ação. Os confrontos funcionam, mas são os momentos de silêncio que realmente revelam o impacto da história.
Cillian Murphy entrega um Tommy Shelby mais humano e vulnerável, sem perder a presença que tornou o personagem um dos maiores símbolos da televisão recente. Sua interpretação transforma um criminoso famoso em uma figura marcada pela solidão.
Barry Keoghan também representa uma adição importante porque permite que o filme olhe para o futuro da família Shelby enquanto ainda está preso ao passado. Ele não substitui Tommy, mas mostra as consequências de tudo que o personagem construiu.
“Peaky Blinders: O Homem Imortal” não alcança a força das melhores fases da série, mas entende algo essencial sobre Tommy Shelby: a maior batalha dele nunca foi contra inimigos externos. Sempre foi contra o homem que ele se tornou.
Ao encerrar essa trajetória, Steven Knight entrega um capítulo marcado pelo peso do passado e pela dificuldade de abandonar uma vida construída sobre violência. É menos uma celebração dos Peaky Blinders e mais o retrato de um homem descobrindo que algumas vitórias chegam tarde demais.




