Após quase uma década desde “O Lamento”, Na Hong-jin retorna com o aguardado “Hope”, produção que chegou cercada por expectativas graças ao maior orçamento da história do cinema sul-coreano e a um elenco internacional. O resultado está longe de ser perfeito, mas confirma que o diretor continua dono de um talento raro para encenar ação. Quando deixa de lado a necessidade de explicar seus monstros e simplesmente mergulha no caos, o filme entrega algumas das sequências mais eletrizantes do ano.
Ambientado na pequena Hope Harbor, cidade localizada próxima à fronteira entre as Coreias, o longa começa como um suspense policial após a descoberta da carcaça grotescamente mutilada de uma vaca. O que parece um incidente isolado rapidamente se transforma em uma invasão alienígena que coloca toda a população diante de uma ameaça impossível de compreender.
Na Hong-jin constrói um espetáculo de ação antes mesmo de revelar seu monstro

Durante boa parte da primeira hora, “Hope” evita mostrar completamente a criatura responsável pela destruição. A estratégia funciona porque Na Hong-jin utiliza a ausência do monstro para aumentar a tensão enquanto apresenta os moradores da cidade e suas reações cada vez mais desesperadas diante dos ataques.
O chefe de polícia Bum-seok, interpretado por Hwang Jung-min, lidera essa narrativa com uma mistura de perplexidade, coragem e humor involuntário. Ao seu redor, caçadores, policiais e moradores comuns tentam sobreviver enquanto carros são arremessados pelas ruas e construções inteiras parecem incapazes de conter aquilo que chegou da floresta.
A direção impressiona pela maneira como organiza esse caos. O diretor de fotografia Hong Kyung-pyo transforma perseguições e explosões em sequências elegantes, utilizando movimentos de câmera extremamente fluidos para dar velocidade sem sacrificar a compreensão do espaço. Há momentos em que a ação parece coreografada com a precisão de uma dança.
O humor torna o desastre ainda mais divertido

Mesmo diante da destruição, “Hope” nunca abandona seu lado cômico. Na Hong-jin encontra humor justamente na incapacidade de seus personagens lidarem com uma situação completamente absurda. Há discussões em meio ao massacre, acidentes provocados pelo desespero e pequenas trapalhadas que surgem nos momentos mais improváveis.
Essa combinação entre terror, ação e comédia lembra o espírito dos filmes B de ficção científica dos anos 1980, mas recebe aqui um acabamento técnico muito superior. O diretor demonstra enorme segurança ao alternar tensão e humor sem que um elemento anule o outro.
Grande parte desse encanto também nasce dos próprios moradores de Hope Harbor. Nenhum deles possui habilidades extraordinárias; são pessoas comuns tentando sobreviver ao impossível, e justamente por isso acabam se tornando mais interessantes do que os próprios invasores.
Os alienígenas nunca alcançam o mesmo impacto da direção

O maior problema surge quando o filme finalmente revela suas criaturas. Depois de construir uma expectativa eficiente, “Hope” apresenta alienígenas cujo visual digital nunca convence completamente. Os efeitos especiais possuem aparência artificial e destoam da fotografia realista que domina o restante da produção.
Esse desequilíbrio fica ainda mais evidente quando o roteiro decide desenvolver a mitologia dos monstros. Conforme novas explicações surgem, o filme perde parte do ritmo que havia construído com tanta eficiência. A narrativa passa a investir em informações que pouco acrescentam ao conflito principal e tornam seus 160 minutos excessivamente longos.
Na Hong-jin parece muito mais interessado em filmar perseguições e confrontos do que em desenvolver uma grande ficção científica sobre invasões extraterrestres. Sempre que tenta aprofundar a origem dos alienígenas, a narrativa perde intensidade.
Quando volta para a ação, Hope recupera toda a sua força

Felizmente, o diretor sabe exatamente onde estão suas maiores qualidades. No último terço, “Hope” praticamente abandona as explicações e retorna ao que faz de melhor: ação desenfreada, perseguições criativas e um espetáculo visual construído com enorme domínio técnico.
Mesmo com criaturas pouco convincentes, Na Hong-jin consegue fazer cada confronto funcionar graças ao excelente controle do ritmo, da montagem e da movimentação de câmera. O resultado é um blockbuster que diverte pela energia de suas cenas muito mais do que pelos elementos fantásticos que tenta desenvolver.
O elenco acompanha essa proposta com competência. Hwang Jung-min sustenta o filme com seu carisma habitual, Hoyeon faz uma estreia segura no cinema, enquanto Michael Fassbender, Alicia Vikander e Taylor Russell aparecem em papéis ligados aos alienígenas, ainda que suas participações acabem limitadas pelo excesso de computação gráfica.
Hope diverte mais quando deixa o espetáculo falar por si
“Hope” nunca encontra uma mitologia capaz de justificar sua longa duração, tampouco apresenta efeitos visuais à altura da ambição do projeto. Ainda assim, Na Hong-jin demonstra mais uma vez por que é um dos diretores mais inventivos do cinema sul-coreano contemporâneo.
Quando abandona a necessidade de explicar cada detalhe da invasão e confia apenas na força da encenação, o filme se torna um espetáculo vibrante, engraçado e eletrizante. Entre perseguições insanas, personagens excêntricos e cenas de ação filmadas com precisão impressionante, “Hope” confirma que, às vezes, divertir o público vale muito mais do que oferecer todas as respostas.




