Crítica: O Estrangeiro encontra no silêncio de Meursault sua força mais inquietante

François Ozon adapta “O Estrangeiro” com Benjamin Voisin em uma narrativa marcada pelo silêncio e pela indiferença de Meursault.
Foto: Carole Bethuel / Divulgação

François Ozon leva o clássico de Albert Camus para o cinema sem tentar tornar seu protagonista mais compreensível, encontrando na contenção de Benjamin Voisin e na fotografia em preto e branco uma linguagem precisa para preservar o desconforto do romance.

Um protagonista que resiste a explicações

François Ozon dirige “O Estrangeiro” em uma adaptação que preserva o silêncio e o desconforto de Meursault.
Foto: Divulgação

Adaptar “O Estrangeiro” sempre envolve um problema particular: boa parte da força do romance de Albert Camus está naquilo que ele se recusa a explicar. Publicado em 1942, o livro acompanha Meursault, um homem que parece observar a própria existência com uma distância quase incompatível com as expectativas sociais. Ele não reage ao luto como deveria, não procura justificar suas escolhas e, depois de cometer um assassinato, demonstra uma relação igualmente desconcertante com culpa e arrependimento. François Ozon compreende que tornar esse personagem mais acessível também significaria diminuir aquilo que o tornou tão perturbador.

Por isso, o diretor encontra na própria linguagem do cinema uma maneira de preservar as lacunas do romance. A fotografia em preto e branco de Manu Dacosse transforma a Argélia em um espaço de contrastes duros, praias luminosas e interiores quase imóveis. A montagem de Clément Selitzki acompanha esse ritmo sem pressa, permitindo que os acontecimentos simplesmente passem diante de Meursault. O tempo, aqui, não parece conduzir necessariamente a alguma coisa. Ele apenas continua.

Benjamin Voisin é fundamental para que essa abordagem funcione. Depois de trabalhar com Ozon em “Verão de 85”, o ator assume um personagem que exige uma atuação quase oposta àquela de um protagonista tradicional. Seu Meursault não é interpretado como alguém misterioso que esconde uma grande verdade interior. Voisin trabalha com pequenos movimentos, pausas e um olhar que permanece firme mesmo quando tudo ao redor começa a ruir.

A ausência de grandes reações não significa ausência de presença. Pelo contrário: quanto menos Meursault oferece ao espectador, mais atenção prestamos aos detalhes. Ele comparece ao funeral da mãe, recusa-se a ver o corpo e passa a noite diante do caixão sem derramar uma lágrima. No dia seguinte, vai à praia. Pouco depois, conhece Marie (Rebecca Marder), retoma uma rotina de encontros, sexo e passeios e aceita até a possibilidade de casamento sem associá-la ao amor.

Marder dá a Marie uma vivacidade que estabelece um contraste importante com o protagonista. Ela deseja algo que Meursault não parece procurar. Há desejo, afeto e expectativa em sua relação com ele, enquanto Meursault responde quase sempre a partir do que sente naquele instante. A franqueza do personagem pode soar cruel, mas Ozon evita apresentá-la como uma forma calculada de maldade. Ele simplesmente não parece compreender a necessidade de fingir sentimentos para tornar a convivência mais confortável.

A violência por trás da indiferença

Benjamin Voisin interpreta Meursault em “O Estrangeiro”, adaptação de François Ozon para o romance de Albert Camus.
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Ao redor desse homem emocionalmente distante, porém, a violência aparece em formas muito mais concretas. Sintès (Pierre Lottin) agride sua amante árabe, Djemila (Hajar Bouzaouit), enquanto Salamano (Denis Lavant) descarrega sua brutalidade sobre o próprio cachorro. Quando o animal desaparece, entretanto, o velho revela um lado sentimental que até então permanecia escondido. O contraste ajuda a criar uma atmosfera na qual a violência não surge como uma anomalia, mas como parte do cotidiano.

É também nesse ambiente que Ozon acrescenta uma dimensão histórica que amplia o romance sem tentar corrigi-lo. Uma montagem de imagens de arquivo da Argélia dos anos 1930 começa quase como um cartão-postal turístico, mas gradualmente incorpora sinais de tensão política e resistência ao domínio francês. A mudança é discreta, porém importante: antes mesmo de Meursault cometer seu crime, o filme já mostra uma sociedade atravessada por desigualdades e conflitos que a perspectiva limitada do protagonista não consegue enxergar completamente.

Essa escolha se estende às personagens que o romance mantém em segundo plano. Djemila deixa de ser apenas uma presença periférica na história, enquanto Marie ganha uma dimensão própria que a narrativa em primeira pessoa de Camus dificilmente poderia oferecer. Até a vítima de Meursault deixa de existir somente como “o Árabe”, adquirindo uma presença que torna o episódio da praia ainda mais concreto.

Quando o encontro finalmente acontece, Ozon evita transformar o assassinato em um espetáculo. A luz excessiva, o calor e a presença física do ambiente pesam sobre a cena. O disparo parece nascer de uma sucessão de circunstâncias banais e desconfortáveis, sem que o filme procure convertê-lo em uma chave capaz de explicar definitivamente quem Meursault é.

O julgamento de Meursault

“O Estrangeiro” leva o protagonista Meursault para uma adaptação cinematográfica marcada pela contenção e pelo preto e branco.
Foto: Divulgação

A partir daí, “O Estrangeiro” muda de registro. A praia desaparece e a narrativa passa a acompanhar a prisão e o julgamento. O crime continua sendo o centro oficial do processo, mas logo fica evidente que Meursault também está sendo julgado por algo que não fez: não chorar pela mãe, não demonstrar remorso da maneira esperada, não apresentar a postura emocional que a sociedade considera adequada.

É nesse momento que a contenção de Voisin se torna ainda mais significativa. Meursault não tenta conquistar o júri e tampouco oferece ao público uma confissão capaz de reorganizar tudo o que vimos. Sua sinceridade continua desconfortável porque não vem acompanhada da necessidade de ser aceito. Ele permanece fiel à própria percepção, mesmo quando essa postura passa a determinar seu destino.

Ozon demonstra inteligência ao não preencher essas lacunas com explicações psicológicas. Existem apenas alguns momentos de narração diretamente retirados do romance, enquanto a maior parte da experiência de Meursault é transferida para a imagem. Os cortes secos, a fotografia austera e a repetição de gestos cotidianos assumem o papel que, no livro, pertence à voz do personagem.

Quando a literatura vira linguagem cinematográfica

Benjamin Voisin interpreta Meursault em “O Estrangeiro”, filme de François Ozon baseado no romance de Albert Camus.
Foto: Divulgação

É justamente aí que a adaptação se diferencia de uma simples transposição literária. Ozon não precisa reproduzir cada pensamento de Meursault para permanecer próximo de Camus. Ele encontra equivalentes visuais para aquilo que o texto deixa suspenso. O silêncio passa a carregar informação; a duração de um olhar substitui uma explicação; um espaço vazio pode dizer tanto quanto uma página inteira.

Essa abordagem também impede que o filme se torne uma versão excessivamente reverente do romance. Ao acrescentar contexto histórico e dar maior dimensão às personagens femininas, Ozon permite que a história seja vista por ângulos que a perspectiva limitada de Meursault não alcançava. Ao mesmo tempo, não modifica a natureza essencial do protagonista para torná-lo mais adequado ao espectador contemporâneo.

O resultado é uma obra que encontra sua força menos nas respostas do que na permanência das perguntas. O Meursault de Voisin não precisa ser transformado em herói, vilão, vítima ou diagnóstico. Ele continua sendo uma presença desconcertante, alguém cuja maneira de existir entra em choque com as regras emocionais que os outros consideram naturais.

“O Estrangeiro” de François Ozon entende que o desconforto de Camus não envelheceu porque nunca dependeu de uma resposta definitiva. Ao levar essa resistência para a tela por meio de uma direção precisa, de imagens rigorosas e de uma atuação baseada na contenção, o filme preserva justamente aquilo que poderia ter sido perdido na adaptação: a sensação de estar diante de alguém que o mundo inteiro tenta compreender, enquanto ele simplesmente continua olhando para o mundo.

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