“How to Make a Killing” parte de uma ideia simples e deliciosamente absurda: um homem decide eliminar os parentes que estão entre ele e uma fortuna. John Patton Ford transforma essa premissa em uma comédia criminal sobre ambição, ressentimento e a sedução de uma vida que sempre pareceu estar fora do alcance de seu protagonista.
Glen Powell interpreta Becket Redfellow, o membro menos favorecido de uma família absurdamente rica. Criado longe do conforto dos parentes, ele cresceu observando de fora o mundo que poderia ter sido seu. Quando percebe que sete primos estão entre ele e uma herança que considera legítima, encontra uma solução radical para o problema.
O interessante é que Becket não se comporta como um assassino convencional. Ele é educado, charmoso e inteligente. Mesmo enquanto planeja uma morte, mantém a aparência de alguém perfeitamente integrado ao ambiente que deseja conquistar. Quanto mais perto chega da fortuna, porém, mais difícil fica acreditar que está apenas corrigindo uma injustiça.
Glen Powell encontra o tom certo

Powell é fundamental para essa contradição funcionar. O ator interpreta Becket com um charme cuidadosamente calculado, deixando sempre a impressão de que existe alguma coisa acontecendo por trás de cada sorriso.
Ele também aproveita sua habilidade para a comédia. Becket possui uma rapidez verbal e uma segurança quase divertida, o que torna seus assassinatos ainda mais estranhos. O filme não precisa transformá-lo em um monstro para mostrar que ele é perigoso.
A própria estrutura reforça essa cumplicidade. Becket conta sua história a partir da prisão, poucas horas antes de sua execução. Sabemos que ele será capturado. A curiosidade está em descobrir como alguém conseguiu chegar tão longe sem ser impedido.
Uma família feita de privilégios

Os Redfellow representam tudo aquilo que Becket acredita ter perdido. Seus parentes vivem cercados por dinheiro, influência e uma sensação de segurança que ele nunca conheceu.
Cada assassinato, portanto, funciona como uma etapa de sua ascensão social. O problema é que o filme não trata essa trajetória apenas como uma fantasia de vingança. Becket começa querendo uma oportunidade e, aos poucos, passa a enxergar qualquer obstáculo como algo que pode ser eliminado.
É nesse ponto que Ford encontra seu comentário mais interessante. A riqueza dos Redfellow não significa apenas conforto. Ela representa pertencimento, poder e a possibilidade de escapar das consequências. Becket deseja tudo isso, mas precisa atravessar uma sequência de cadáveres para chegar ao mesmo lugar.
Margaret Qualley muda o equilíbrio

Margaret Qualley interpreta Julia, o amor de infância de Becket e uma das figuras mais imprevisíveis da história. Ela representa uma forma ainda mais direta de ambição, sem a necessidade de criar tantas justificativas para suas escolhas.
Qualley combina sensualidade, inteligência e crueldade com uma naturalidade que dá ao filme uma energia diferente sempre que Julia aparece. Sua personagem também funciona como um contraponto para Becket: enquanto ele tenta convencer a si mesmo de que seus atos possuem alguma lógica, ela parece compreender perfeitamente o jogo que está jogando.
Bill Camp e Topher Grace também aproveitam a caricatura da elite. Camp traz gravidade irônica ao papel de um veterano das finanças, enquanto Grace transforma um pastor corrupto de uma megaigreja em uma figura exagerada e divertida. Ed Harris, como o patriarca Whitelaw Redfellow, concentra boa parte da arrogância que Becket passou a vida tentando superar.
Entre o clássico e a comédia criminal

A comparação com “Kind Hearts and Coronets” é inevitável. O clássico de 1949 também acompanhava um homem disposto a eliminar parentes para alcançar uma fortuna. Ford mantém essa estrutura, mas troca a aristocracia britânica por uma elite americana marcada por dinheiro, influência e mercado financeiro.
“How to Make a Killing” não tenta reproduzir a elegância do original. É mais rápido, agressivo e próximo das comédias criminais contemporâneas. A inspiração está na premissa, enquanto a crítica à riqueza pertence ao presente.
O filme funciona melhor quando abraça esse absurdo. As mortes são construídas como pequenas peças de humor negro, e Becket segue avançando por um mundo em que as consequências parecem sempre chegar tarde demais.
Essa escolha, porém, também expõe uma das limitações da produção. A investigação nunca alcança a mesma força dos planos de Becket. O detetive desconfia da sequência de mortes, mas raramente representa uma ameaça concreta. Como sabemos desde o começo que o protagonista será capturado, parte da tensão acaba desaparecendo.
“How to Make a Killing” não possui a elegância de “Kind Hearts and Coronets”, mas encontra personalidade suficiente para justificar sua existência. Glen Powell conduz a história com um equilíbrio eficiente entre charme e ameaça, enquanto Margaret Qualley acrescenta uma imprevisibilidade que impede a trama de ficar confortável demais.
O melhor do filme está na contradição de Becket. Ele começa acreditando que está corrigindo uma injustiça e termina usando essa mesma injustiça como justificativa para continuar matando. A fortuna que deveria representar sua liberdade acaba revelando o quanto ele está disposto a perder para finalmente fazer parte do mundo que sempre desejou.




