Crítica de “How to Make a Killing”: Glen Powell disputa uma fortuna entre assassinatos e humor negro

How to Make a Killing acompanha Becket Redfellow em sua busca pela fortuna da família através de assassinatos.
Foto: A24

“How to Make a Killing” parte de uma ideia simples e deliciosamente absurda: um homem decide eliminar os parentes que estão entre ele e uma fortuna. John Patton Ford transforma essa premissa em uma comédia criminal sobre ambição, ressentimento e a sedução de uma vida que sempre pareceu estar fora do alcance de seu protagonista.

Glen Powell interpreta Becket Redfellow, o membro menos favorecido de uma família absurdamente rica. Criado longe do conforto dos parentes, ele cresceu observando de fora o mundo que poderia ter sido seu. Quando percebe que sete primos estão entre ele e uma herança que considera legítima, encontra uma solução radical para o problema.

O interessante é que Becket não se comporta como um assassino convencional. Ele é educado, charmoso e inteligente. Mesmo enquanto planeja uma morte, mantém a aparência de alguém perfeitamente integrado ao ambiente que deseja conquistar. Quanto mais perto chega da fortuna, porém, mais difícil fica acreditar que está apenas corrigindo uma injustiça.

Glen Powell encontra o tom certo

Becket Redfellow aparece em How to Make a Killing enquanto planeja conquistar a fortuna da família.
Foto: A24

Powell é fundamental para essa contradição funcionar. O ator interpreta Becket com um charme cuidadosamente calculado, deixando sempre a impressão de que existe alguma coisa acontecendo por trás de cada sorriso.

Ele também aproveita sua habilidade para a comédia. Becket possui uma rapidez verbal e uma segurança quase divertida, o que torna seus assassinatos ainda mais estranhos. O filme não precisa transformá-lo em um monstro para mostrar que ele é perigoso.

A própria estrutura reforça essa cumplicidade. Becket conta sua história a partir da prisão, poucas horas antes de sua execução. Sabemos que ele será capturado. A curiosidade está em descobrir como alguém conseguiu chegar tão longe sem ser impedido.

Uma família feita de privilégios

Glen Powell interpreta Becket Redfellow em How to Make a Killing, uma comédia criminal sobre ambição e herança.
Foto: A24

Os Redfellow representam tudo aquilo que Becket acredita ter perdido. Seus parentes vivem cercados por dinheiro, influência e uma sensação de segurança que ele nunca conheceu.

Cada assassinato, portanto, funciona como uma etapa de sua ascensão social. O problema é que o filme não trata essa trajetória apenas como uma fantasia de vingança. Becket começa querendo uma oportunidade e, aos poucos, passa a enxergar qualquer obstáculo como algo que pode ser eliminado.

É nesse ponto que Ford encontra seu comentário mais interessante. A riqueza dos Redfellow não significa apenas conforto. Ela representa pertencimento, poder e a possibilidade de escapar das consequências. Becket deseja tudo isso, mas precisa atravessar uma sequência de cadáveres para chegar ao mesmo lugar.

Margaret Qualley muda o equilíbrio

Becket Redfellow observa o mundo da família rica que pretende conquistar em How to Make a Killing.
Foto: A24

Margaret Qualley interpreta Julia, o amor de infância de Becket e uma das figuras mais imprevisíveis da história. Ela representa uma forma ainda mais direta de ambição, sem a necessidade de criar tantas justificativas para suas escolhas.

Qualley combina sensualidade, inteligência e crueldade com uma naturalidade que dá ao filme uma energia diferente sempre que Julia aparece. Sua personagem também funciona como um contraponto para Becket: enquanto ele tenta convencer a si mesmo de que seus atos possuem alguma lógica, ela parece compreender perfeitamente o jogo que está jogando.

Bill Camp e Topher Grace também aproveitam a caricatura da elite. Camp traz gravidade irônica ao papel de um veterano das finanças, enquanto Grace transforma um pastor corrupto de uma megaigreja em uma figura exagerada e divertida. Ed Harris, como o patriarca Whitelaw Redfellow, concentra boa parte da arrogância que Becket passou a vida tentando superar.

Entre o clássico e a comédia criminal

Glen Powell vive um herdeiro disposto a eliminar os obstáculos até a fortuna em How to Make a Killing.
Foto: A24

A comparação com “Kind Hearts and Coronets” é inevitável. O clássico de 1949 também acompanhava um homem disposto a eliminar parentes para alcançar uma fortuna. Ford mantém essa estrutura, mas troca a aristocracia britânica por uma elite americana marcada por dinheiro, influência e mercado financeiro.

“How to Make a Killing” não tenta reproduzir a elegância do original. É mais rápido, agressivo e próximo das comédias criminais contemporâneas. A inspiração está na premissa, enquanto a crítica à riqueza pertence ao presente.

O filme funciona melhor quando abraça esse absurdo. As mortes são construídas como pequenas peças de humor negro, e Becket segue avançando por um mundo em que as consequências parecem sempre chegar tarde demais.

Essa escolha, porém, também expõe uma das limitações da produção. A investigação nunca alcança a mesma força dos planos de Becket. O detetive desconfia da sequência de mortes, mas raramente representa uma ameaça concreta. Como sabemos desde o começo que o protagonista será capturado, parte da tensão acaba desaparecendo.

“How to Make a Killing” não possui a elegância de “Kind Hearts and Coronets”, mas encontra personalidade suficiente para justificar sua existência. Glen Powell conduz a história com um equilíbrio eficiente entre charme e ameaça, enquanto Margaret Qualley acrescenta uma imprevisibilidade que impede a trama de ficar confortável demais.

O melhor do filme está na contradição de Becket. Ele começa acreditando que está corrigindo uma injustiça e termina usando essa mesma injustiça como justificativa para continuar matando. A fortuna que deveria representar sua liberdade acaba revelando o quanto ele está disposto a perder para finalmente fazer parte do mundo que sempre desejou.

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