Crítica de “Marty Supreme”: Timothée Chalamet encontra o ponto exato entre o charme e a arrogância em um filme esportivo fora do comum

Timothée Chalamet interpreta Marty Mauser em “Marty Supreme”, filme sobre ambição e tênis de mesa.
Foto: A24

“Marty Supreme” apresenta um protagonista que parece incapaz de existir fora de uma competição. Marty Mauser (Timothée Chalamet) acredita que nasceu para dominar o tênis de mesa, mas sua verdadeira obsessão não é exatamente vencer. É convencer todo mundo de que ele deveria estar vencendo. A diferença parece pequena, mas é o que transforma o personagem em uma figura tão fascinante quanto difícil de suportar.

Josh Safdie parte dessa contradição para construir um filme esportivo que rapidamente escapa do gênero. Há partidas, rivais, viagens e um campeonato a conquistar, mas o que realmente move a história é a personalidade de Marty. Ele transforma trabalho, dinheiro, sexo, amizade e até suas derrotas em extensões da mesma disputa. Para ele, quase tudo pode ser negociado, manipulado ou vencido.

Ambientado em 1952, quando o tênis de mesa ainda ocupava uma posição marginal no imaginário esportivo, o filme acompanha Marty entre os clubes apertados do Lower East Side, Londres e Tóquio. Livremente inspirado no campeão judeu-americano Marty Reisman, o personagem enxerga no esporte uma oportunidade de escapar da vida que recebeu e, principalmente, de provar que é especial.

Vencer não é suficiente

Marty Mauser, interpretado por Timothée Chalamet, em cena de “Marty Supreme”, dirigido por Josh Safdie.
Foto: A24

Chalamet entende que a arrogância de Marty só funciona porque não existe cálculo por trás dela. Ele não interpreta um jovem que finge confiança para esconder inseguranças. Marty realmente acredita em sua própria excepcionalidade. Quando perde para Koto Endo (Koto Kawaguchi), não considera a possibilidade de que o adversário tenha sido simplesmente melhor. A derrota apenas cria uma nova dívida que ele pretende cobrar.

É aí que o tênis de mesa deixa de ser apenas o assunto do filme e passa a funcionar como uma espécie de linguagem. Marty joga como vive: antecipando movimentos, procurando brechas e tentando transformar qualquer situação em vantagem. Sua inteligência é genuína, assim como sua habilidade. O problema é que ele usa essas qualidades para justificar a ideia de que as regras existem principalmente para os outros.

Quando precisa de dinheiro para viajar a Londres, por exemplo, a falta de recursos não representa um obstáculo definitivo. Marty simplesmente procura outra saída. Quando alguém se recusa a ajudá-lo, ele aumenta a pressão. Seu raciocínio é quase infantil em sua lógica, mas também perigosamente eficiente: se ele acredita que alguma coisa lhe pertence, então o trabalho consiste apenas em descobrir como tomá-la.

Essa postura explica por que Marty consegue ser tão engraçado em uma cena e tão desagradável na seguinte. A mesma autoconfiança que o torna um competidor extraordinário também o transforma em alguém incapaz de reconhecer limites.

Josh Safdie encontra o ritmo do personagem

Marty Mauser aparece em cena de “Marty Supreme”, acompanhando sua busca por reconhecimento no tênis de mesa.
Foto: A24

Depois de anos dividindo a direção com Benny Safdie em filmes como “Good Time” e “Joias Brutas”, Josh Safdie trabalha sozinho e leva consigo aquela sensação de que alguma coisa pode sair do controle a qualquer momento. Aqui, porém, o perigo não está apenas nas circunstâncias. Ele está no próprio Marty.

O filme raramente permanece parado porque seu protagonista também não consegue permanecer parado. A narrativa acompanha sua passagem por Nova York, Londres e Tóquio com a mesma ansiedade de quem está sempre procurando a próxima oportunidade. Mesmo os ambientes parecem contaminados por essa energia: clubes apertados, hotéis elegantes, ruas movimentadas e espaços onde personagens desconhecidos surgem e desaparecem rapidamente.

A trilha de Daniel Lopatin contribui para essa sensação de deslocamento. Músicas que pertencem a outra época aparecem em momentos decisivos, enquanto a composição original mantém a história em constante movimento. Safdie não tenta transformar 1952 em uma reconstrução histórica contemplativa. O período funciona como cenário para uma fantasia acelerada sobre ambição, dinheiro e desejo de reconhecimento.

A derrota como humilhação

Timothée Chalamet como Marty Mauser em “Marty Supreme”, filme de Josh Safdie sobre competição e ambição.
Foto: A24

A derrota para Koto ganha importância porque coloca Marty diante de algo que dinheiro, charme e improvisação não conseguem resolver imediatamente. Koto representa uma forma de disciplina que Marty não possui. Enquanto o japonês parece encontrar força na concentração, Marty precisa transformar cada momento em espetáculo.

Quanto maior a humilhação, maior é sua necessidade de recuperar o controle. A revanche deixa de ser apenas uma questão esportiva e passa a representar uma tentativa de restaurar a imagem que Marty construiu de si mesmo.

Rachel (Odessa A’zion) percebe parte dessa contradição. Sua gravidez coloca Marty diante de uma responsabilidade que não pode ser resolvida simplesmente com uma nova aposta. Ela não funciona apenas como interesse amoroso, mas como alguém capaz de acompanhar sua velocidade e reconhecer quando sua autoconfiança começa a se transformar em autoengano.

Kay Stone (Gwyneth Paltrow) apresenta outro tipo de desafio. Marty se aproxima da atriz sem sequer conhecer sua obra, interessado principalmente na dificuldade de conquistá-la. Só que Kay também entende de manipulação. Ela possui experiência suficiente para perceber o tipo de jogo que Marty está tentando jogar, e essa inversão cria uma das relações mais interessantes do filme.

Paltrow não interpreta Kay como alguém simplesmente seduzida pelo carisma do protagonista. Existe cálculo em seus gestos, assim como existe uma história anterior ao encontro com Marty. Pela primeira vez, ele encontra alguém que talvez esteja tão interessado em controlar a situação quanto ele.

O esporte como desculpa

Marty Mauser disputa seu espaço no tênis de mesa em “Marty Supreme”, estrelado por Timothée Chalamet.
Foto: A24

“Marty Supreme” poderia seguir a estrutura tradicional de uma cinebiografia esportiva: apresentar o talento, mostrar os obstáculos, introduzir um grande rival e conduzir o protagonista até a competição decisiva. Safdie prefere outra coisa. O tênis de mesa oferece uma justificativa concreta para a obsessão de Marty, mas o filme está mais interessado na pessoa que precisa dessa obsessão.

Marty joga porque precisa que alguma coisa confirme sua própria importância. Se ninguém considera o tênis de mesa um grande esporte, ele considera. Se ninguém acredita nele, sua resposta é acreditar ainda mais. O problema é que essa convicção não termina na mesa. Ela contamina sua relação com dinheiro, família, mulheres e amigos.

É também por isso que o filme evita transformar seu protagonista em um simples herói de superação. Marty pode ser brilhante e carismático, mas também é egoísta, imprudente e frequentemente cruel. Essas características não aparecem como etapas de uma jornada que necessariamente levará ao amadurecimento. Elas são parte da mesma personalidade.

Chalamet sustenta essa contradição sem suavizá-la. Seu Marty é magnético quando entra em uma sala porque parece convencido de que já pertence ao lugar. Ao mesmo tempo, existe algo desesperado nessa segurança. Quanto mais ele insiste que é excepcional, mais fica evidente que precisa que o mundo confirme essa ideia.

Um protagonista difícil de abandonar

Essa é também a razão pela qual “Marty Supreme” pode ser uma experiência cansativa. São 149 minutos acompanhando alguém que raramente desacelera, admite uma derrota ou aceita que outra pessoa possa estar certa. A exaustão não é um acidente do filme. Ela faz parte da experiência de conviver com Marty.

Mas existe uma diferença importante entre um personagem irritante e um personagem que não consegue sustentar a atenção. Marty pertence à segunda categoria. Mesmo quando suas decisões provocam impaciência, é difícil deixar de observar o próximo movimento. Chalamet consegue encontrar humor nas provocações, charme na arrogância e pequenos sinais de vulnerabilidade sem desmontar a personalidade que construiu.

O resultado é um filme esportivo em que a maior competição acontece longe da mesa. Marty está tentando convencer os adversários, as pessoas que ama e, talvez principalmente, a si próprio de que a versão extraordinária que criou de sua vida é verdadeira.

Safdie não precisa decidir se Marty merece essa confiança. O interesse está justamente em acompanhar até onde ela pode levá-lo — e o que acontece quando a realidade finalmente encontra alguém que passou a vida inteira acreditando que deveria vencer.

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