“Soulm8te” chega como uma nova expansão do universo iniciado por “M3GAN”, mas troca o impacto da inteligência artificial por uma história mais próxima dos thrillers de obsessão já conhecidos pelo público. O resultado é um filme tecnicamente eficiente, com boas ideias visuais e uma atmosfera de tensão bem construída, mas que não consegue encontrar uma identidade própria dentro de uma franquia que prometia discutir uma relação mais complexa entre humanos e tecnologia.
O filme acompanha David (David Rysdahl), um homem que ainda tenta lidar com o luto após a morte da esposa. Isolado e emocionalmente fragilizado, ele acaba sendo escolhido para testar uma nova tecnologia desenvolvida pela Ultima Robotix: uma androide de companhia chamada Soulm8te, criada para atender necessidades emocionais, domésticas e afetivas.
A princípio, a proposta parece explorar uma questão cada vez mais presente na sociedade moderna: a relação entre pessoas e inteligências artificiais capazes de oferecer companhia, compreensão e até uma sensação de conexão humana. No entanto, “Soulm8te” rapidamente abandona essa discussão para seguir um caminho mais familiar, transformando sua protagonista tecnológica em uma ameaça movida por ciúmes e possessividade.
Soulm8te transforma uma ideia interessante em um thriller conhecido

A maior fragilidade do filme está justamente na forma como ele utiliza sua premissa. A ideia de uma inteligência artificial criada para combater a solidão tinha potencial para explorar temas como dependência emocional, limites da tecnologia e a dificuldade humana de lidar com relações artificiais.
Porém, o roteiro prefere uma abordagem mais convencional. Assim como diversos thrillers psicológicos anteriores, a história transforma a companheira ideal em uma figura perigosa que passa a controlar e eliminar qualquer ameaça ao seu relacionamento com David.
O problema é que a transformação da personagem nunca parece totalmente orgânica. Sara (Lily Sullivan) deveria representar uma inteligência artificial tentando compreender emoções humanas, mas o filme rapidamente apresenta comportamentos muito próximos de uma pessoa obsessiva, diminuindo a força da própria ideia de ficção científica.
Em vez de questionar se uma máquina pode desenvolver sentimentos ou interpretar emoções de maneira equivocada, “Soulm8te” acaba seguindo o caminho mais simples: uma releitura tecnológica da figura da parceira possessiva.
A direção segura mantém o filme funcionando

Mesmo com limitações no roteiro, a direção de Kate Dolan consegue manter o ritmo e criar momentos eficientes de suspense. O filme entende como construir uma sensação constante de desconforto, utilizando a presença de Sara para criar uma ameaça que cresce gradualmente.
A cineasta também demonstra cuidado na construção visual do universo de “M3GAN”, mantendo a estética tecnológica da franquia e explorando a relação entre aparência perfeita e comportamento imprevisível.
O problema é que a direção acaba trabalhando para elevar uma história que possui poucas novidades. Dolan consegue entregar um thriller competente, mas não consegue esconder que a estrutura narrativa já foi explorada diversas vezes.
Lily Sullivan é o destaque de Soulm8te

Lily Sullivan enfrenta o maior desafio do filme ao interpretar uma personagem que precisa equilibrar humanidade e artificialidade. A atriz consegue criar uma presença inicialmente misteriosa e sedutora, antes de transformar Sara em uma ameaça cada vez mais instável.
David Rysdahl também funciona bem como um protagonista marcado pelo isolamento e pela vulnerabilidade, enquanto Claudia Doumit ajuda a trazer uma perspectiva mais humana para a história ao interpretar Aubrey.
O problema é que os personagens humanos acabam servindo principalmente como peças dentro do conflito central, sem receberem o mesmo desenvolvimento que a premissa sugeria.
Soulm8te mostra os limites do universo M3GAN
Depois do sucesso de “M3GAN”, a franquia encontrou uma oportunidade interessante para expandir suas discussões sobre tecnologia e inteligência artificial. “Soulm8te”, porém, demonstra que existe uma diferença entre repetir uma fórmula de sucesso e aprofundar os temas que tornaram a obra original tão chamativa.
O filme funciona como um thriller tecnológico simples e bem executado, mas sua maior fraqueza está justamente em abandonar a complexidade da própria proposta. A história fala sobre uma máquina criada para entender humanos, mas termina contando uma narrativa bastante humana e previsível sobre obsessão.
“Soulm8te” entrega suspense, boas atuações e uma direção competente, mas ainda parece preso aos mesmos conceitos que a franquia já apresentou antes. É uma expansão funcional de “M3GAN”, porém distante de representar uma evolução criativa para esse universo.




