Crítica: O Bom Bandido encontra em Channing Tatum um criminoso impossível de ignorar

Channing Tatum interpreta Jeffrey Manchester em “O Bom Bandido”, comédia criminal dirigida por Derek Cianfrance.
Foto: Paramount Pictures

“O Bom Bandido” encontra sua força na contradição de Jeffrey Manchester. Ele é um criminoso engenhoso, capaz de planejar assaltos pouco convencionais e improvisar quando seus planos saem do controle. Ao mesmo tempo, demonstra uma dificuldade quase desconcertante para lidar com as consequências das próprias escolhas. Channing Tatum percebe essa combinação e constrói um personagem que desperta simpatia sem deixar de carregar o peso de seus erros.

Dirigido por Derek Cianfrance, o filme parte de uma história real que parece inventada para uma comédia criminal. Manchester ganhou o apelido de “Roofman” por entrar em restaurantes pelo telhado, esconder-se durante a noite e realizar os assaltos pela manhã. Depois de ser preso e escapar da cadeia, encontrou um esconderijo ainda mais improvável: os espaços internos de uma loja da Toys R Us, na Carolina do Norte.

O absurdo da situação poderia conduzir o longa para uma aventura policial leve, mas Cianfrance prefere observar o homem que existe por trás da história curiosa. O crime é apenas a parte mais visível de uma trajetória marcada por tentativas de recomeço que nunca se sustentam por muito tempo.

Channing Tatum dá dimensão ao criminoso

Channing Tatum interpreta Jeffrey Manchester em “O Bom Bandido”, dirigido por Derek Cianfrance.
Foto: Paramount Pictures

O desempenho de Channing Tatum é fundamental para que Jeffrey não se transforme em uma caricatura. O ator aproveita seu carisma natural, mas não suaviza completamente o comportamento do personagem. Jeffrey consegue ser atencioso em determinados momentos e, logo depois, tomar decisões que colocam outras pessoas em risco.

Essa instabilidade também aparece na maneira como ele pensa. Existe inteligência em seus planos, mas ela convive com uma impulsividade que frequentemente desmonta o que acabou de construir. Jeffrey sabe encontrar saídas quando está encurralado; o que parece não saber é como evitar chegar novamente à mesma situação.

Tatum entende que o interesse do personagem não está em sua habilidade como criminoso, e sim nessa incapacidade de organizar as diferentes partes da própria vida. Ele quer ser visto como alguém capaz de cuidar da família e construir uma nova rotina, enquanto continua recorrendo aos mesmos métodos que o levaram à prisão.

A Toys R Us vira o estranho refúgio de Jeffrey

Channing Tatum como Jeffrey Manchester em cena de “O Bom Bandido”, comédia criminal baseada em uma história real.
Foto: Paramount Pictures

É nesse ponto que a Toys R Us ganha importância dentro da narrativa. O esconderijo não funciona apenas como uma curiosidade da história. Cercado por brinquedos, doces e objetos destinados às crianças, Jeffrey consegue criar uma espécie de vida paralela, distante das responsabilidades que deveria enfrentar.

A situação possui um humor evidente, mas Cianfrance não trata aquele período como uma simples aventura. Existe algo melancólico na maneira como Jeffrey ocupa um espaço destinado à infância enquanto tenta reconstruir uma existência adulta que já perdeu.

A direção de arte de Inbal Weinberg ajuda a sustentar essa sensação. A recriação da antiga loja dá personalidade ao ambiente e faz com que ele pareça simultaneamente acolhedor e provisório. Jeffrey encontrou um lugar onde pode desaparecer, mas não encontrou uma maneira de seguir em frente.

Leigh representa uma possibilidade de recomeço

Jeffrey Manchester, interpretado por Channing Tatum, em “O Bom Bandido”, filme dirigido por Derek Cianfrance.
Foto: Paramount Pictures

A relação com Leigh Wainscott, vivida por Kirsten Dunst, coloca Jeffrey diante de uma alternativa que não depende de seus planos criminosos. Ela tem filhos, trabalha na loja e leva consigo responsabilidades que tornam qualquer tentativa de aproximação mais complicada.

Dunst interpreta Leigh com a cautela necessária. Ela não transforma a personagem em alguém imediatamente disponível para o romance e mantém uma distância que torna o envolvimento mais convincente. Ao lado de Tatum, cria uma relação baseada tanto na atração quanto na desconfiança.

O roteiro, entretanto, toma algumas liberdades para aproximar os dois. Essas alterações enfraquecem determinados aspectos dos personagens e fazem com que algumas situações pareçam convenientes demais para o desenvolvimento da história. É uma das áreas em que “O Bom Bandido” perde parte da força que apresenta quando se concentra em Jeffrey.

O humor não apaga a melancolia

Channing Tatum protagoniza “O Bom Bandido” como Jeffrey Manchester, um criminoso marcado por escolhas e recomeços.
Foto: Paramount Pictures

Derek Cianfrance encontra uma atmosfera que remete ao cinema americano dos anos 1970. A fotografia e o tom geral acompanham uma história que poderia facilmente ser tratada como uma excentricidade criminal, mas o diretor mantém uma camada de tristeza por baixo das situações mais divertidas.

Isso faz diferença porque a trajetória de Jeffrey possui elementos naturalmente engraçados. Um criminoso vivendo escondido em uma loja de brinquedos oferece inúmeras oportunidades para a comédia. O filme aproveita algumas delas, mas não permite que o humor apague as consequências de suas escolhas.

Jeffrey continua sendo responsável pelos crimes que comete. O fato de demonstrar afeto por outras pessoas ou tentar fazer coisas boas não elimina essa realidade. “O Bom Bandido” consegue conviver com essas duas características sem precisar escolher entre apresentar seu protagonista como vítima ou vilão.

Uma história sobre oportunidades desperdiçadas

É nessa ambiguidade que o filme encontra seu melhor argumento. Jeffrey parece estar sempre próximo de uma vida diferente. Quando surge uma possibilidade concreta, porém, ele volta a comportamentos que conhece bem. Sua inteligência cria soluções imediatas, enquanto sua impulsividade impede que elas durem.

Por isso, o filme é menos interessante quando trata Jeffrey como uma figura curiosa do crime e mais quando acompanha suas tentativas de construir uma existência que não combina com o homem que ele continua sendo.

A própria trajetória acompanha esse movimento. Prisão, fuga, esconderijo, romance e novas escolhas parecem etapas de um caminho de reconstrução, mas cada avanço carrega consigo alguma coisa do passado. Jeffrey consegue mudar de lugar com facilidade. Mudar a própria maneira de viver é muito mais difícil.

Essa é também a razão pela qual Channing Tatum funciona tão bem no papel. Seu Jeffrey não precisa ser completamente simpático para prender a atenção, nem completamente repulsivo para que suas escolhas tenham consequências. O ator encontra um ponto intermediário que permite ao personagem permanecer imprevisível até quando suas intenções parecem claras.

“O Bom Bandido” não trata a história de Jeffrey Manchester como uma simples celebração de um criminoso improvável. O filme usa o absurdo de sua trajetória para observar um homem que teve oportunidades de reconstrução, mas continuou carregando os mesmos impulsos para cada nova tentativa.

O resultado é uma comédia criminal com uma melancolia inesperada. Cianfrance encontra humor onde a história oferece situações absurdas, enquanto Tatum sustenta um protagonista cuja maior dificuldade nunca foi escapar de uma prisão ou esconder-se dentro de uma loja. Foi descobrir o que fazer depois de conseguir escapar.

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