“Princesa Burro” parte de um conto de fadas para contar uma história sobre uma fuga que nunca consegue ser completa. Dirigido por Cristóbal León e Joaquín Cociña, o filme acompanha Diana, uma princesa sufocada pelo controle do pai e pelas regras de um reino patriarcal. Quando finalmente encontra uma maneira de escapar, ela descobre que deixar um lugar para trás não significa necessariamente se libertar dele.
A ideia combina com o cinema dos diretores chilenos. Depois do horror artesanal de “A Casa do Lobo” e da experiência mais abstrata de “Os Hiperbóreos”, León e Cociña retornam ao universo dos contos de fadas sem abandonar a experimentação visual que marcou seus trabalhos anteriores. O resultado não alcança a mesma força do primeiro longa da dupla, mas encontra uma identidade própria ao aproximar suas imagens fantásticas de uma história sobre trauma e liberdade.
Princesa Burro transforma a fuga em um ciclo
Inspirado em “Pele de Asno”, conto de Charles Perrault marcado por uma relação familiar perturbadora, o filme apresenta Diana, interpretada por Antonia Giesen, como uma jovem presa à vontade do pai depois da morte da mãe. A chegada de Lalo, um plebeu por quem ela se apaixona, abre a possibilidade de uma vida longe da corte.
A tentativa de escapar, porém, é interrompida rapidamente. Lalo é banido pelo rei, enquanto Diana recebe uma pulseira capaz de realizar desejos através do espaço e do tempo. O objeto acaba levando a princesa para o Chile contemporâneo, onde ela reencontra Lalo e começa uma nova vida.
O passado, entretanto, não fica para trás. O pai de Diana também chega ao novo mundo, agora sem os poderes que possuía no reino, mas ainda capaz de interferir na vida da filha. A partir daí, Diana passa por diferentes vidas e identidades, sempre procurando uma saída que parece estar ao alcance, mas nunca se completa.
É nessa repetição que o filme encontra sua ideia mais interessante. A fantasia não oferece uma solução simples para a personagem. Cada nova realidade apenas muda a forma como ela enfrenta aquilo de que tentou escapar. A viagem entre mundos acaba funcionando como uma representação de uma liberdade que permanece incompleta.
O mundo de Diana parece estar sempre prestes a desaparecer
A construção visual acompanha essa instabilidade. O reino de Diana parece uma enorme maquete de conto de fadas, com torres de formas improváveis, montanhas artificiais, florestas feitas de galhos e animais que parecem ter saído de um desenho. Os cenários carregam uma aparência artesanal e provisória, como se aquele mundo pudesse ser desmontado a qualquer momento.
O desenho de produção de Natalia Geisse aproveita justamente essa artificialidade. Os espaços não tentam parecer reais, e o filme pode mudar suas regras visuais conforme Diana atravessa diferentes dimensões. A combinação de atores reais, animação e cenários construídos à mão mantém essa sensação de instabilidade durante boa parte da história.
León e Cociña continuam demonstrando domínio sobre a criação de imagens. Há uma riqueza de texturas e materiais nos cenários, enquanto cada mudança de ambiente traz uma nova solução visual. O problema é que a narrativa nem sempre acompanha a mesma força.
A forma é mais segura do que a narrativa
O início de “Princesa Burro” é acelerado e pode dificultar a compreensão de algumas relações e acontecimentos. As mudanças de realidade também aparecem antes que o filme estabeleça completamente suas regras, o que torna a primeira parte menos envolvente do que sua proposta sugere.
Com o avanço da história, a estrutura encontra maior equilíbrio. As diferentes vidas de Diana passam a fazer sentido dentro da ideia de uma personagem que tenta escapar do próprio passado, mas continua encontrando vestígios dele em cada novo caminho.
Ainda assim, existe uma distância entre a riqueza do conceito e o impacto emocional de algumas situações. O filme sabe exatamente como criar imagens estranhas e memoráveis, mas nem sempre consegue fazer com que essas imagens tenham o mesmo peso dramático. Em certos momentos, a experiência parece mais interessada na possibilidade de uma nova forma visual do que nas consequências emocionais daquela mudança para Diana.
Quando a fantasia perde espaço para a realidade
Essa relação muda perto do final. Depois de construir uma sucessão de mundos artificiais, León e Cociña aproximam o filme de um registro muito mais realista. A mudança quebra a lógica fantástica que dominava a narrativa e dá outro significado ao percurso de Diana.
É também quando a proposta do filme fica mais clara. A fantasia não existe apenas para criar um universo incomum, mas para colocar em imagens a dificuldade de escapar de uma experiência que continua acompanhando a personagem. Diana pode mudar de lugar, de identidade e de realidade, mas não consegue simplesmente apagar aquilo que viveu.
Essa escolha aproxima “Princesa Burro” de uma tradição de contos de fadas em que a fuga nunca representa uma solução definitiva. A diferença está na maneira como León e Cociña levam essa ideia para diferentes linguagens e fazem da própria construção do filme uma extensão da jornada da protagonista.
Uma fantasia que encontra sua força na inquietação
“Princesa Burro” não possui a intensidade atmosférica de “A Casa do Lobo” e tampouco alcança sempre a mesma precisão entre forma e narrativa. Ainda assim, representa um passo interessante na filmografia de León e Cociña, que continuam ampliando os limites de seu cinema sem abandonar o interesse por mundos feitos à mão.
O filme funciona melhor quando deixa suas imagens conduzirem a experiência e quando relaciona as mudanças de realidade ao estado emocional de Diana. Quando tenta explicar demais sua própria estrutura, perde parte do mistério que torna sua proposta tão atraente.
No fim, permanece uma contradição simples e eficaz: Diana consegue escapar do reino, mas não consegue escapar completamente daquilo que ele deixou nela. É nessa distância entre fugir e estar livre que “Princesa Burro” encontra sua melhor ideia — e também o ponto em que sua fantasia visual ganha um peso maior do que a própria aventura que a sustenta.





